Entrada da safra brasileira amplia oferta, mas mercado global do café segue sob tensão

Projeções de maior fluxo de grãos nas próximas semanas trazem alívio temporário, mas estoques baixos, clima e gargalos de transporte marítimo contêm queda nos preços

Hosa Freitas
Foto: Divulgação

Projeções indicam aumento do fluxo da produção brasileira nas próximas semanas, porém estoques apertados, risco climático e gargalos logísticos mantêm cenário de forte volatilidade internacional.

A entrada mais intensa da safra brasileira de café no mercado internacional deve ampliar a oferta do produto nas próximas quatro a seis semanas, pressionando as cotações no curto prazo. Ainda assim, analistas, tradings e operadores do setor avaliam que o mercado global segue longe de um cenário de tranquilidade.

A avaliação foi reforçada durante o XXV Seminário Internacional do Café, realizado em Santos (SP), entre os dias 19 e 21 de maio, onde representantes do mercado internacional destacaram que, apesar da expectativa de aumento da disponibilidade do produto brasileiro, o setor continua convivendo com estoques globais apertados, tensões geopolíticas, custos logísticos elevados e riscos climáticos importantes.

Segundo Alex Perk, responsável pela área de café da trading Comexim Group na Europa, parte das regiões produtoras brasileiras já iniciou a colheita, enquanto outras ainda entram no pico dos trabalhos nas próximas semanas.

A expectativa da empresa é que o fluxo mais significativo da produção brasileira chegue ao mercado consumidor global entre junho e julho, elevando temporariamente a oferta internacional e criando pressão sobre os preços.

Safra brasileira acima das projeções oficiais

A Comexim projeta uma safra brasileira de aproximadamente 71 milhões de sacas no ciclo 2026/27. O número supera as estimativas atuais da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), que trabalha com previsão de 66,7 milhões de sacas.

Do total projetado pela trading, cerca de 23 milhões de sacas seriam de café conilon, enquanto o restante corresponde ao arábica.

O mercado, porém, ainda não possui consenso absoluto sobre o tamanho real da safra brasileira. Cooperativas, produtores e consultorias seguem divergindo sobre produtividade, qualidade dos grãos e impacto climático nas principais regiões produtoras.

Estoques apertados e clima mantêm mercado em alerta

Embora a entrada da safra brasileira aumente a oferta no curto prazo, o mercado internacional do café segue longe de um cenário de tranquilidade. Os investidores acompanham uma combinação de fatores que continua sustentando a volatilidade global, entre eles os estoques internacionais reduzidos, o risco de geadas durante o inverno brasileiro, os possíveis impactos climáticos sobre a Ásia e o aumento dos custos de logísticas em função dos gargalos rodoviários e portuários, além dos conflitos no Oriente Médio.

O risco climático continua sendo um dos principais fatores de sustentação dos preços. O mercado monitora especialmente a possibilidade de geadas nas regiões produtoras brasileiras durante os meses de inverno.

Ao mesmo tempo, operadores internacionais acompanham os impactos do El Niño e das mudanças climáticas sobre a produção de robusta no Sudeste Asiático. Qualquer quebra mais significativa na oferta asiática pode deslocar parte da demanda internacional para o arábica brasileiro.

Geopolítica e petróleo entram no radar do café

Outro ponto que ganhou força nas análises recentes é a influência da geopolítica sobre o mercado cafeeiro.

A guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e os riscos sobre o Estreito de Ormuz passaram a pressionar os custos globais de transporte marítimo, combustíveis e seguros internacionais.
Segundo executivos do setor, o impacto já é percebido nos custos logísticos das exportações brasileiras, especialmente nos embarques realizados pelo Porto de Santos.

Tradings internacionais estimam aumento relevante nos custos ligados ao frete marítimo, energia, combustíveis e transporte internacional. Na prática, mesmo que a entrada da safra brasileira pressione momentaneamente os preços internacionais, o mercado ainda convive com uma estrutura global considerada frágil.

Mercado acompanha dólar e exportações

No Brasil, produtores seguem atentos ao comportamento do dólar, da demanda externa e da velocidade da colheita nas principais regiões cafeeiras, especialmente no Cerrado Mineiro e Sul de Minas.

Analistas avaliam que o comportamento do câmbio pode ajudar a sustentar parte dos preços internos, mesmo em um ambiente internacional de maior oferta.
O consenso entre operadores do setor é que os próximos meses deverão continuar marcados por forte volatilidade, com os preços reagindo rapidamente ao clima, à geopolítica, à logística e às expectativas de oferta global.

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