A disputa por produtividade no campo já não acontece apenas dentro da porteira. Cada vez mais, e sim, começa meses antes do plantio, nas negociações de fertilizantes, defensivos, fretes internacionais e operações cambiais que impactam diretamente os custos da produção agrícola.
É nesse cenário que empresas especializadas em inteligência de mercado vêm ganhando espaço dentro da cadeia do agronegócio brasileiro. Um dos exemplos é a Nobel Trading, empresa fundada em 2022, em Florianópolis (SC), que atua na importação de insumos agrícolas e na conexão entre fornecedores internacionais, cooperativas, indústrias e empresas do setor.
Segundo o fundador e CEO da empresa, Rafael Diegues, o diferencial do modelo está no uso intensivo de dados para orientar decisões de compra.
“A Nobel foi criada para trazer um pouco dessa informação de mercado, democratizar esse acesso à informação. Por tudo que nós fazemos, nós consideramos a Nobel uma empresa de inteligência de mercado”, afirma.
A estratégia ocorre em um momento em que o Brasil amplia sua dependência de fertilizantes importados. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que o país importou cerca de 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025, o maior volume já registrado na série histórica.
O crescimento das importações reflete tanto a expansão da produção agrícola quanto a necessidade de garantir produtividade em um país que ainda depende fortemente de fornecedores internacionais para abastecer o mercado de nutrientes agrícolas.
A geopolítica entrou na conta do produtor
Se antes a compra de fertilizantes era tratada apenas como uma etapa operacional da safra, hoje ela passou a fazer parte da gestão estratégica das propriedades rurais.
Nos últimos anos, conflitos internacionais, restrições comerciais, oscilações cambiais e problemas logísticos globais transformaram o mercado de fertilizantes em um dos segmentos mais sensíveis do agronegócio.
A dependência externa brasileira continua elevada, especialmente em produtos como ureia, potássio e fosfatos. Isso faz com que eventos ocorridos a milhares de quilômetros das lavouras brasileiras tenham impacto direto nos custos de produção.Recentemente, tensões no Oriente Médio voltaram a pressionar o mercado global de fertilizantes. O conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel provocou preocupações sobre a circulação de mercadorias pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas do comércio mundial de fertilizantes. O movimento gerou aumento expressivo nos preços internacionais da ureia e reacendeu alertas sobre segurança de abastecimento.
Nesse ambiente de volatilidade, acompanhar diariamente indicadores internacionais passou a ser tão importante quanto monitorar clima e produtividade.
“O produtor vem investindo muito em tecnologia, mas ele não se atenta muito a essa janela de oportunidade dos insumos, que faz parte do custo dele e é fundamental para ter um resultado na safra”, destaca Rafael Diegues.
Dados, câmbio e logística passam a definir margens
Especialistas do setor apontam que a rentabilidade agrícola depende cada vez mais da capacidade de antecipar movimentos de mercado.
A compra de fertilizantes envolve fatores como câmbio, preços internacionais das commodities, disponibilidade nos portos, fretes marítimos, estoques globais e até decisões políticas tomadas por grandes países exportadores.
Nesse contexto, empresas que conseguem monitorar essas variáveis em tempo real acabam oferecendo uma vantagem competitiva importante para cooperativas e produtores rurais.
O movimento acompanha uma tendência observada em diversos mercados globais, onde o uso de inteligência de mercado deixou de ser exclusividade de grandes tradings multinacionais e passou a alcançar empresas de médio porte e produtores mais estruturados.
Mercado caminha para decisões cada vez mais técnicas
A expansão do agronegócio brasileiro tem elevado a demanda por ferramentas que permitam maior previsibilidade na gestão de custos.
Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) mostram que as entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro cresceram 7,7% em 2025, alcançando mais de 49 milhões de toneladas, acompanhando a expansão da produção agrícola nacional. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que a competitividade do produtor não depende apenas de produzir mais, mas de comprar melhor.
Nesse cenário, inteligência de mercado, análise de risco, monitoramento cambial e leitura dos movimentos internacionais passam a ocupar espaço estratégico dentro das decisões do agronegócio brasileiro, transformando informação em uma ferramenta tão valiosa quanto os próprios insumos utilizados na lavoura.

