A dificuldade crescente no controle da cigarrinha-das-raízes da cana-de-açúcar deixou de ser apenas um problema de manejo agrícola e passou a ser uma questão de diagnóstico científico. Pesquisas conduzidas por universidades e centros de pesquisa brasileiros confirmaram a presença de uma nova espécie de cigarrinha atacando a cana, diferente daquelas tradicionalmente monitoradas nas lavouras.
A descoberta ajuda a explicar por que métodos que funcionaram por anos passaram a apresentar desempenho cada vez mais limitado, mesmo quando aplicados corretamente, gerando prejuízos expressivos em regiões altamente dependentes da cultura, como o Triângulo Mineiro.
Praga não criou resistência: produtores estavam combatendo a espécie errada
Até então, o principal alvo do manejo era a Mahanarva fimbriolata, ao lado da Mahanarva spectabilis. No entanto, relatos recorrentes de produtores indicando queda de eficiência nos controles levantaram um alerta dentro da comunidade científica.
A pista decisiva veio de uma pesquisadora da Embrapa, em Araras (SP), que questionou um diagnóstico considerado “automático” no campo: e se não fosse a mesma espécie?
A resposta veio após análises genéticas e morfológicas de mais de 300 indivíduos, conduzidas por equipes da Unesp em parceria com a PUCRS. O resultado confirmou a presença de uma espécie distinta: Mahanarva diakantha, até então confundida com as demais.
Erro histórico pode ter causado perdas silenciosas por décadas
O dado mais preocupante é que a Mahanarva diakantha não é uma praga recente. Revisões em coleções entomológicas indicam que a espécie pode estar presente no Brasil desde os anos 1960, sendo confundida com espécies aparentadas.
Na prática, isso significa que parte das perdas registradas ao longo de décadas pode não ter sido consequência de falhas no produto ou resistência da praga, mas sim de controle direcionado à espécie errada.
No campo, a lógica é simples: controle não é herança genética. Um método que funciona muito bem para uma cigarrinha pode ter desempenho apenas mediano em outra, mesmo que visualmente elas pareçam idênticas na rotina da lavoura.
Cana-de-açúcar é base do agro e motor econômico no Triângulo Mineiro
O alerta ganha peso especial no Triângulo Mineiro, onde a cana-de-açúcar está entre as principais atividades do agronegócio regional. A cultura fornece matéria-prima para as usinas sucroenergéticas, responsáveis pela produção de açúcar, etanol e energia elétrica a partir da biomassa — um dos pilares da economia local.
O setor sucroenergético é um dos principais motores econômicos da região, com forte geração de empregos diretos e indiretos, movimentação logística e impacto relevante na arrecadação municipal. Municípios como Santa Vitória, Carneirinho e Canápolis têm na cana-de-açúcar uma de suas bases produtivas centrais, sustentando o funcionamento e a competitividade das usinas instaladas nessas localidades.
Nesse contexto, qualquer falha no controle de pragas como a cigarrinha-das-raízes afeta diretamente a produtividade agrícola, a eficiência industrial e o desempenho econômico regional.
Impacto da praga pode chegar a 80% da produção
O tamanho do problema acompanha a dimensão da cultura no país. O Brasil mantém produção anual próxima de 700 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, abastecendo os mercados de açúcar, etanol e bioenergia.
Somente em 2024, as exportações de açúcar renderam US$ 18,61 bilhões ao país. Dentro dessa cadeia, a cigarrinha-das-raízes é considerada uma das pragas mais severas. Ao sugar a seiva da planta e injetar toxinas, o inseto compromete a sacarose, provoca a queima das folhas e pode causar perdas de até 80% da produção em casos mais graves.
Controle biológico segue eficaz, mas exige diagnóstico correto
Apesar do cenário preocupante, pesquisadores descartam qualquer risco de colapso no setor. O controle biológico com o fungo Metarhizium anisopliae segue como a principal ferramenta contra a cigarrinha-das-raízes, desde que aplicado com base na correta identificação da espécie presente na área.
A recomendação é intensificar o monitoramento, investir em diagnóstico mais preciso e ajustar estratégias de manejo, especialmente diante das mudanças no sistema produtivo da cana na última década, como o avanço da colheita mecanizada.
Para regiões como o Triângulo Mineiro, onde a cana-de-açúcar sustenta parte significativa da economia, acertar o alvo no controle da praga deixou de ser detalhe técnico e passou a ser questão estratégica.
