Potência leiteira do Triângulo Mineiro enfrenta margens apertadas e saída de produtores

Região reúne tradição, tecnologia e capacidade industrial, mas queda nos preços, custos elevados e concorrência dos importados pressionam principalmente as pequenas propriedades

Hosa Freitas
Foto: Divulgação - Renato de Freitas

Uberlândia – A produção de leite ocupa lugar importante na economia rural do Triângulo Mineiro. A região reúne propriedades tecnificadas, disponibilidade de grãos para alimentação do rebanho, assistência especializada e uma indústria capaz de transformar a matéria-prima em queijos, manteiga, leite em pó e outros derivados.

Essa estrutura ajuda a colocar Minas Gerais na liderança nacional. Em 2024, o estado produziu aproximadamente 9,8 bilhões de litros, equivalentes a 27,4% da produção brasileira. Municípios do Triângulo e do Alto Paranaíba, como Patos de Minas, Uberlândia, Ituiutaba, Prata, Frutal, Campina Verde, Tupaciguara, Capinópolis e Gurinhatã, participam dessa cadeia.

Produção cresce, mas renda não acompanha

O aumento da produtividade não significa, necessariamente, maior rentabilidade. O produtor enfrenta custos elevados com alimentação, medicamentos, energia, equipamentos e mão de obra, enquanto o preço recebido pelo leite pode variar de um mês para outro.

Em 2025, os laticínios brasileiros adquiriram formalmente 27,51 bilhões de litros, crescimento de 8,5% sobre o ano anterior. Ao mesmo tempo, o preço médio nacional recuou de R$ 2,61 por litro, em 2024, para R$ 2,56 em 2025. No último trimestre do ano, a média chegou a R$ 2,21.

Esse descompasso atinge com maior intensidade os pequenos produtores, que possuem menor escala, enfrentam dificuldades para negociar com os compradores e nem sempre conseguem investir em tecnologias capazes de reduzir os custos.

Importações aumentam a pressão

A entrada de produtos lácteos estrangeiros também preocupa o setor. Somente em maio de 2026, o Brasil importou cerca de 25,9 mil toneladas de lácteos, volume equivalente a aproximadamente 220 milhões de litros de leite. Argentina e Uruguai responderam por 86% dessas compras.

Os produtos importados ajudam a ampliar a oferta no mercado interno e podem pressionar os preços pagos ao produtor brasileiro. Para as propriedades do Triângulo Mineiro, o risco é competir com mercadorias produzidas em condições tributárias, cambiais e financeiras diferentes.

Em Gurinhatã, a gravidade da situação levou à formação de um comitê para discutir a crise. Produtores relatam dificuldades para cobrir os custos e manter a atividade, cenário que pode acelerar o abandono da pecuária leiteira.

Tecnologia precisa produzir renda

O Triângulo Mineiro possui condições para continuar como uma das principais bacias leiteiras do país. Entretanto, o futuro da atividade dependerá de gestão, assistência técnica, controle dos custos e maior transparência na formação dos preços.

Melhoramento genético, alimentação equilibrada, irrigação de pastagens, qualidade sanitária e automação podem elevar a produtividade, mas exigem investimentos. Sem remuneração adequada, a modernização pode aumentar o endividamento em vez de fortalecer a propriedade.

Cooperativas, associações e políticas de crédito também são importantes para ampliar o poder de negociação dos produtores. Outra alternativa é agregar valor por meio da fabricação de queijos, doces e derivados com identidade regional.

O leite continua sendo uma atividade essencial para a geração de renda e a permanência das famílias no campo. Preservar essa cadeia no Triângulo Mineiro significa garantir que eficiência produtiva e tecnologia também se convertam em sustentabilidade econômica para quem produz.

Fonte: Mapa/IBGE

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