Um grupo de advogados protocolou na Câmara Municipal de Uberlândia uma representação formal pedindo a instauração imediata de um processo de cassação contra o vereador Edson Carvalho Ferreira, o “Edinho Combate ao Câncer”. O documento, assinado pelo escritório Tricotti, Oliveira & Zamboni, acusa o parlamentar de infrações político-administrativas graves e quebra de decoro parlamentar.
A movimentação ocorre poucos dias após o vereador se envolver em uma polêmica prisão e meses após denúncias do Ministério Público. Para os juristas, a soma dos fatores torna a permanência de Edinho no cargo insustentável.
As acusações: do dinheiro público à delegacia
O pedido de cassação se baseia em dois pilares principais que, segundo a representação, ferem de morte a moralidade administrativa e o decoro necessário ao cargo. O primeiro ponto é a denúncia do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), de agosto de 2025, que aponta um suposto esquema de desvio de verbas e improbidade administrativa.
Segundo o documento entregue à Mesa Diretora, Edinho teria participado do desvio de R$ 78.612,50 destinados à Associação de Assistência aos Portadores de Câncer do Triângulo Mineiro. O recurso, oriundo de emenda parlamentar impositiva, deveria ter sido usado para comprar cadeiras de rodas, cadeiras de banho e camas hospitalares, mas teria retornado ao vereador através de notas fiscais falsas e simulação de compras.
O segundo ponto, que serviu para o pedido de hoje, foi a condução do vereador na madrugada de 21 de novembro. Edinho foi detido por desacato e, segundo o Boletim de Ocorrência da Polícia Militar citado pelos advogados, apresentava sinais de embriaguez, recusou-se a se identificar e proferiu ofensas aos agentes públicos.

Advogados falam em “salvo-conduto”
Em nota oficial enviada à imprensa na tarde desta quarta-feira, o escritório Tricotti, Oliveira & Zamboni endureceu o discurso. Os juristas afirmam que a representação é uma defesa do interesse público e da moralidade administrativa, rebatendo antecipadamente eventuais teses de defesa política.
A imunidade parlamentar confere liberdade de expressão, mas não pode ser interpretada como um salvo-conduto para a prática de ilícitos ou para o desrespeito ao decoro parlamentar”, declarou o corpo jurídico na nota.
Os advogados reforçam que a perda dos requisitos de idoneidade é condição sine qua non (indispensável) para a manutenção do cargo e cobram urgência do Conselho de Ética na apreciação do caso.
“Vítima de perseguição”, diz Edinho
Procurado pela Coluna Poder logo após o protocolo do documento, o vereador Edinho se manifestou de forma sucinta. Em mensagem enviada à nossa reportagem, o parlamentar refutou as acusações e classificou a movimentação jurídica como um ataque pessoal e político.
“Estou sendo vítima de perseguição”, limitou-se a dizer o vereador.
A linha de defesa mantém o tom adotado por ele dias atrás, quando comentou sua prisão em entrevista ao Regionalzão. Na ocasião, ele alegou “abuso de autoridade” e chegou a criticar a Polícia Militar, afirmando que “são pessoas despreparadas e eles lavram os REDs da forma que eles querem”. Essas falas, inclusive, foram anexadas ao pedido de cassação como provas de conduta incompatível com a dignidade do mandato.
O que diz o Ministério Público
A Coluna Poder procurou o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) para comentar a citação do órgão no pedido de cassação. Em resposta enviada nesta tarde, a assessoria do MP reiterou os termos da denúncia criminal oferecida contra o vereador e informou que, como o processo está judicializado, o andamento atualizado da ação deve ser verificado diretamente junto ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).
O que diz a Câmara
A Câmara Municipal de Uberlândia confirmou o recebimento do pedido de cassação protocolado nesta tarde. Em nota, a Diretoria de Comunicação informou que o documento foi imediatamente encaminhado à Procuradoria Jurídica da Casa. A análise da Procuradoria verificará os requisitos formais e legais da representação. Somente após essa avaliação o presidente Zezinho Mendonça se pronunciará oficialmente sobre o acolhimento do pedido, a definição do rito e a previsão de leitura em plenário.
Próximos passos
A bola agora está com a Mesa Diretora da Câmara Municipal. O presidente Zezinho Mendonça deve encaminhar o pedido para análise da Procuradoria da Casa e, posteriormente, para leitura em plenário.
A reportagem entrou em contato com a assessoria do Legislativo para confirmar se o rito será iniciado já na próxima sessão, mas até o fechamento desta matéria não obteve retorno. O espaço segue aberto.
Já é o quarto pedido
O caso de Edinho não é isolado e reforça um período de turbulência política inédita nos corredores da Câmara Municipal. Este já é o quarto pedido de cassação a movimentar os bastidores do Legislativo em um curto espaço de tempo.
Recentemente, a Casa teve que lidar com uma denúncia contra o vereador Queijinho, que acabou sendo arquivada. Outro parlamentar que entrou na mira foi Adriano Zago, que também teve um pedido de cassação protocolado e também foi arquivado.
A instabilidade atingiu o Executivo: o vice-prefeito Vanderlei Pelizer foi alvo de dois pedidos distintos de cassação em meio a polêmicas internacionais e crises internas. A sequência de processos desgasta a imagem do Legislativo.
Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro.
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