A adoção de crianças com mais de 8 anos representa um desafio significativo em Uberaba, conforme aponta o titular da Vara da Infância e Juventude, juiz Marcelo Lemos. A baixa procura por este grupo etário, em comparação com bebês e crianças menores, prolonga a espera por um novo lar para esses jovens na cidade.
Segundo o juiz Lemos, em entrevista à rádio JM, existe uma clara disparidade entre o perfil das crianças disponíveis para adoção em Uberaba e o perfil desejado pela maioria dos pretendentes. “Aqui na comarca de Uberaba, temos sim pretendentes à adoção. Mas são eles que definem o perfil da criança que querem adotar. E a grande maioria ainda prefere crianças de até 8 anos. A partir dessa idade, temos dificuldades em arrumar família“, explica.
Cenário nacional preocupante
Essa realidade local ecoa um cenário nacional alarmante. Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento revelam que, no Brasil, o número de crianças e adolescentes acima de 8 anos aguardando adoção é mais que o dobro das crianças menores dessa idade. São cerca de 3.700 jovens com mais de 8 anos em busca de uma família, enquanto aproximadamente 1.500 têm até essa faixa etária.
Marcelo Lemos reforçou que a adoção não é a primeira opção considerada pela Justiça. A prioridade é sempre a reintegração da criança à sua família de origem, conforme preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “Nosso foco é a reintegração da criança à sua família, quando possível. Só quando isso se mostra inviável, partimos para o encaminhamento à adoção”, afirma.
Família Acolhedora como alternativa
Em Uberaba, o programa Família Acolhedora surge como uma alternativa importante ao acolhimento institucional. A iniciativa, fruto da parceria entre a Vara da Infância, o Ministério Público, a Defensoria Pública e a Secretaria de Desenvolvimento Social, já beneficiou 22 crianças e adolescentes em situação de risco. Atualmente, quatro menores seguem acolhidos pelo serviço.
Uma equipe técnica trabalha junto à criança e seus familiares para reconstruir os vínculos e possibilitar o retorno ao lar. Quando essa reintegração não é possível, a criança pode ser encaminhada para adoção. As famílias acolhedoras recebem uma ajuda de custo mensal para auxiliar nas necessidades do menor. Para participar do programa, é necessário ter mais de 21 anos, residir em Uberaba há pelo menos dois anos, não estar habilitado para adoção e passar por capacitação. O processo é totalmente gratuito.
Lemos ainda esclareceu ao JM, que o acolhimento familiar é, em geral, destinado a uma criança por família ou a grupos de irmãos. “Desde o início, deixamos claro que o objetivo não é adoção. A família precisa entender que vai acolher por um tempo determinado. Caso queiram adotar, precisam deixar o programa e se habilitar no processo de adoção formal”, conclui o juiz.
