Prata, Uberaba ou Uberlândia? Entenda quem deu origem a quem no Triângulo Mineiro

Levantamento elaborado pelo mestre em História José Fernandes, do perfil @historiapresente1, reconstrói a linha sucessória dos municípios e mostra como antigos territórios foram divididos até formar as atuais cidades da região

Eloi Naves
Prata, no Triângulo Mineiro, uma 'mãe' para outros municípios da região.
Prata, no Triângulo Mineiro, deu origem a diversos outros municípios da região.Foto: Divulgação

Olhar para o mapa atual do Triângulo Mineiro e do Pontal não revela uma parte importante da história da região. Municípios hoje independentes já fizeram parte de territórios muito maiores e, ao longo de quase dois séculos, foram surgindo a partir de sucessivos desmembramentos.

É justamente essa relação de “quem deu origem a quem” que aparece em um levantamento elaborado pelo mestre em História José Fernandes, responsável pelo perfil @historiapresente1. O trabalho organiza os principais marcos administrativos de municípios como Araxá, Uberaba, Uberlândia, Prata, Monte Alegre de Minas, Frutal, Campina Verde, Ituiutaba, Iturama e Santa Vitória.

A linha histórica ajuda ainda a entender o papel de municípios que, no passado, controlavam territórios muito maiores do que suas áreas atuais. Um dos casos mais emblemáticos é Prata, que chegou a ter mais de 600 mil hectares e esteve diretamente relacionado à formação de diversas cidades do Triângulo e do Pontal.

Fonte: Historiador José Fernandes, mestre em História e responsável pelo perfil @presentehistoria1

Araxá está na base de parte da formação regional

A linha histórica começa antes mesmo da existência formal dos municípios como são conhecidos atualmente.

Antes de 1791 já existia o Arraial de São Domingos do Araxá. Em 1791, a localidade passou à condição de freguesia e, em 1811, tornou-se julgado.

A Vila de São Domingos do Araxá foi criada em 13 de outubro de 1831 e a Câmara Municipal instalada em 7 de janeiro de 1833. Finalmente, em 19 de dezembro de 1865, Araxá recebeu o título de cidade.

A importância de Araxá para a linha sucessória não se limita à própria trajetória administrativa. Seu antigo território está relacionado à estrutura territorial da qual posteriormente surgiria Uberaba, que, por sua vez, teria papel fundamental no nascimento de outros municípios.

Uberaba se tornou um dos principais municípios de origem

Uberaba aparece como um dos grandes pontos de ramificação da história municipal do Triângulo Mineiro.

A localidade tornou-se freguesia em 1811 e vila em 1816. Em 1836, foi criado o Município de Uberaba e, duas décadas depois, em 1856, Uberaba alcançou a categoria de cidade.

Naquele período, porém, o território administrado por Uberaba era muito maior que o atual.

Com o crescimento de outros povoados e a reorganização administrativa da região, partes desse território começaram a ganhar autonomia. Dessa estrutura territorial surgiram municípios que posteriormente também seriam responsáveis pela formação de novas cidades.

São Pedro de Uberabinha deu origem à atual Uberlândia

A história de Uberlândia passa pelo antigo São Pedro de Uberabinha, ligado historicamente ao território de Uberaba.

Segundo a linha sucessória apresentada no levantamento, o arraial foi criado em 1833. Em 1847, São Pedro de Uberabinha alcançou a condição de vila.

Em 1888, ocorreu a criação do município.

A cidade ainda passaria por mudanças de nome antes de se tornar definitivamente Uberlândia. Portanto, ao se observar a árvore administrativa regional, a atual Uberlândia está ligada diretamente ao processo de fragmentação do antigo território uberabense.

Prata virou uma espécie de município-mãe do Pontal

Se Uberaba ocupa posição central na primeira parte da formação territorial regional, Prata assume papel ainda mais evidente quando se observa o surgimento dos municípios do Pontal e de parte do Triângulo.

Em 1839, aparece o Arraial de Sant’Ana do Prata. Em 1854, foi criado o município e, em 1873, Prata alcançou a condição de vila.

O ponto mais importante, porém, está no tamanho que o município já possuiu.

O território de Prata ultrapassava 600 mil hectares, abrangendo áreas que posteriormente seriam desmembradas e transformadas em municípios independentes.

Por isso, ao acompanhar a sucessão territorial, Prata aparece ligado direta ou indiretamente à formação de Monte Alegre de Minas, Ituiutaba, Frutal, Campina Verde, Iturama e Santa Vitória.

Isso não significa que todas essas cidades tenham sido desmembradas diretamente de Prata no mesmo momento. Algumas nasceram de municípios que anteriormente também haviam integrado seu território, formando uma verdadeira árvore genealógica administrativa.

Monte Alegre de Minas saiu da estrutura territorial de Prata

Um dos exemplos é Monte Alegre de Minas.

A linha histórica registra que, em 1843, a localidade estava vinculada administrativamente a Prata. Em 16 de setembro de 1870, tornou-se município.

Em 3 de outubro de 1880, alcançou a categoria de cidade.

Entre 1943 e 1946, Monte Alegre de Minas chegou a se chamar Toribaté, retornando posteriormente à denominação atual.

Assim, dentro da linha sucessória regional, Monte Alegre aparece como um dos municípios diretamente relacionados ao antigo território de Prata.

Frutal também se tornou um novo polo territorial

Frutal representa outra etapa importante dessa fragmentação.

Sua emancipação política ocorreu em 4 de outubro de 1887. A criação de Frutal teve impacto que iria além de suas próprias fronteiras, porque posteriormente partes do território relacionadas ao município participariam da formação de outras cidades do Pontal.

É justamente aí que a linha sucessória começa a ganhar novas ramificações: um município que nasceu de uma divisão territorial passa, décadas depois, a perder parte de seu próprio território para a criação de outro.

Campina Verde nasceu de áreas ligadas a Prata e Frutal

É o caso de Campina Verde.

O município foi criado em 17 de dezembro de 1938. O levantamento destaca que sua formação envolveu o desmembramento de áreas pertencentes a Prata e Frutal.

Isso coloca Campina Verde em uma posição importante na árvore territorial do Pontal.

A cidade não representa o fim dessa linha sucessória. Anos depois, parte de seu território também participaria do surgimento de outro município.

Iturama veio de Campina Verde

Iturama é um bom exemplo de uma segunda geração de desmembramentos.

Em 1938, a localidade aparece como distrito de Santa Rosa, pertencente a Campina Verde.

Em 31 de dezembro de 1943, houve mudança administrativa e de denominação. Finalmente, em 27 de dezembro de 1948, foi criado o Município de Iturama.

Ou seja, na linha sucessória apresentada por José Fernandes, a relação territorial pode ser resumida da seguinte maneira: uma área anteriormente relacionada ao grande território de Prata ajudou a formar Campina Verde e, posteriormente, Campina Verde deu origem a Iturama.

Ituiutaba também está ligada ao antigo território de Prata

Outro braço importante dessa história leva até Ituiutaba.

Em 1901, ocorreu a emancipação da então localidade de São José do Tijuco.

O município posteriormente receberia a denominação atual e passaria a ocupar papel central na organização administrativa do Pontal.

Assim como aconteceu com outras cidades da região, Ituiutaba também passaria de município originado por uma reorganização territorial para município de origem de outra cidade.

Santa Vitória surgiu de Ituiutaba

É nessa sequência que aparece Santa Vitória.

No início do século XX, a localidade ainda era um pequeno povoado. Em 1923, passou à condição de distrito e pertencia a Ituiutaba.

Finalmente, em 1948, Santa Vitória tornou-se município independente.

Nesse ramo da linha sucessória, portanto, é possível visualizar uma sequência histórica de desmembramentos territoriais que chega até Santa Vitória.

Uma árvore territorial de mais de um século

Quando a história é colocada lado a lado, fica mais fácil visualizar como os atuais municípios estão relacionados.

De maneira simplificada, a linha sucessória apresentada no levantamento passa por grandes núcleos territoriais, especialmente Araxá, Uberaba e Prata, antes de se dividir em diferentes ramificações.

Uberaba está associado à formação de São Pedro de Uberabinha, atual Uberlândia, enquanto Prata aparece como um dos principais pontos de origem dos municípios que posteriormente se espalhariam pelo Pontal.

A partir desses novos municípios, ocorreram outros desmembramentos. Campina Verde está ligada à formação de Iturama, enquanto Ituiutaba está diretamente relacionada ao nascimento de Santa Vitória.

Assim, municípios que hoje aparecem lado a lado no mapa nem sempre surgiram de maneira independente. Muitos pertenciam ao mesmo território até decisões políticas e administrativas promoverem novas divisões.

Levantamento utiliza documentos e obras históricas

Para construir a linha sucessória, José Fernandes considerou as mudanças oficiais de situação administrativa das localidades, como arraial, freguesia, julgado, vila, município e cidade, além das alterações de denominação ocorridas ao longo do tempo.

Também foram utilizadas datas estabelecidas por leis, decretos e atos administrativos, além da identificação do município ou distrito do qual cada nova cidade se desmembrou.

As fontes incluem leis provinciais e estaduais, arquivos públicos municipais e estaduais, documentos oficiais, atas de câmaras municipais, decretos, relatórios administrativos, livros e pesquisas sobre a história do Triângulo Mineiro e do Pontal do Triângulo.

Entre as referências está ainda a obra O Trem da História – Araxá 150 Anos de Cidade, produzida pela Fundação Cultural Calmon Barreto e pela Prefeitura Municipal de Araxá.

O levantamento ressalta que determinadas datas podem apresentar pequenas diferenças entre fontes históricas, justamente pela complexidade da formação administrativa de cada município.

O levantamento e os infográficos foram elaborados pelo mestre em História José Fernandes, responsável pelo perfil @historiapresente1.

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