Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, os reflexos do conflito vêm sendo sentidos na economia mundial. Em Minas Gerais, um dos setores mais afetados é a construção pesada, atividade altamente dependente de derivados do petróleo e que possui papel estratégico em Uberlândia, cidade que vive um dos maiores ciclos de investimentos em infraestrutura da sua história.
Segundo o Sindicato da Indústria da Construção Pesada no Estado de Minas Gerais (Sicepot-MG), o aumento do preço internacional do petróleo elevou em 32% o valor do cimento asfáltico de petróleo (CAP), conhecido como betume, principal matéria-prima utilizada na produção do asfalto. O insumo representa sozinho mais de 50% do custo da pavimentação.
Obras em Uberlândia podem sentir os reflexos
O cenário preocupa especialmente Uberlândia, que concentra importantes obras públicas e privadas, além de grandes investimentos em mobilidade urbana, expansão viária, novos bairros planejados, loteamentos, condomínios e infraestrutura logística.
Um dos principais exemplos é a duplicação da BR-365 entre Uberlândia e Patrocínio, considerada uma das maiores obras rodoviárias previstas para o Triângulo Mineiro. A intervenção integra a concessão da EPR Triângulo e prevê investimentos de aproximadamente R$ 320 milhões, reforçando a importância da construção pesada para o desenvolvimento regional.
Como a construção pesada depende diretamente de derivados do petróleo, o aumento do custo do betume pode pressionar o orçamento de empreendimentos dessa natureza, elevando despesas tanto para empresas quanto para contratos públicos.
Além da duplicação da BR-365, Uberlândia vive uma forte expansão urbana. A cidade reúne diversos bairros planejados, loteamentos, condomínios horizontais, empreendimentos imobiliários e obras de infraestrutura que exigem investimentos contínuos em pavimentação, terraplenagem e mobilidade. Por isso, a elevação dos custos dos insumos da construção pesada pode repercutir em projetos públicos e privados que estão transformando a paisagem urbana do município.
Betume ficou 32% mais caro
Segundo o presidente do Sicepot-MG, Bruno Ligório, os insumos ligados ao petróleo foram os que mais sofreram impacto desde o início da guerra.
O cimento asfáltico de petróleo (CAP), utilizado na fabricação do asfalto, acumulou alta de 32%. Como consequência, o custo das obras rodoviárias aumentou entre 10% e 12%.
Na construção civil, o impacto foi menor, variando entre 4% e 5%, mas também influenciado pelo aumento dos derivados do petróleo.
Ligório explica que a Petrobras adota a política de paridade internacional. Assim, quando o petróleo sobe no mercado externo, os reajustes acabam chegando também ao mercado brasileiro, afetando combustíveis e produtos derivados, como o betume.
Empresas recorrem ao reequilíbrio dos contratos
Diante da alta dos custos, construtoras responsáveis por obras públicas passaram a solicitar aos órgãos contratantes o chamado reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos.
Segundo o Sicepot-MG, trata-se de um instrumento previsto na legislação para recompor perdas provocadas por acontecimentos extraordinários, como guerras e crises internacionais capazes de alterar significativamente os preços dos insumos.
Enquanto aguardam a análise desses pedidos, muitas empresas enfrentam aumento da necessidade de capital de giro e maior pressão sobre o fluxo de caixa, situação que afeta principalmente pequenas e médias construtoras.
Setor prevê poucos avanços em 2026
O sindicato também demonstra preocupação com o ritmo dos investimentos em infraestrutura.
Segundo Bruno Ligório, o setor projeta estagnação em 2026, mantendo investimentos equivalentes a cerca de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual considerado insuficiente para atender às necessidades de infraestrutura do país.
De acordo com ele, o cenário é influenciado pela combinação entre juros elevados, aumento dos custos dos insumos e adiamento de investimentos privados, além das incertezas provocadas pelo ambiente geopolítico internacional.
Impactos vão além do Oriente Médio
Embora a guerra ocorra a milhares de quilômetros de Uberlândia, seus reflexos chegam diretamente ao Triângulo Mineiro por meio do mercado internacional de petróleo.
Como grande parte das obras de infraestrutura depende de derivados do petróleo para pavimentação, aumentos no preço do barril acabam sendo repassados ao custo do betume e de outros insumos essenciais da construção pesada.
Para Uberlândia, onde estão em andamento ou previstos investimentos em mobilidade urbana, expansão viária, bairros planejados, loteamentos, empreendimentos imobiliários e grandes obras rodoviárias, como a duplicação da BR-365 entre Uberlândia e Patrocínio, o cenário exige atenção. A alta dos custos pode pressionar contratos públicos e privados justamente em um momento de forte expansão da infraestrutura e do desenvolvimento urbano da cidade.

