O uso de etanol de cana-de-açúcar como combustível para navios pode abrir um novo mercado para a indústria canavieira do Triângulo Mineiro. Uma das etapas para estimular essa utilização poderá ocorrer ainda em 2026, com a aprovação de uma referência internacional para calcular as emissões de gases de efeito estufa do biocombustível, conforme informação publicada pelo Globo Rural.
Na prática, o etanol será utilizado para alimentar os motores das embarcações, substituindo combustíveis derivados de petróleo em navios preparados para essa tecnologia. A discussão na Organização Marítima Internacional, conhecida pela sigla IMO, envolve como contabilizar o benefício ambiental dessa substituição.
O chamado “padrão de intensidade de carbono” funciona como uma referência para medir a quantidade de gases de efeito estufa emitida por unidade de energia fornecida pelo combustível. Essa avaliação considera o ciclo de produção e utilização do etanol, desde o cultivo da cana até o consumo na embarcação.
Com uma referência reconhecida internacionalmente, as empresas de navegação poderão comparar as emissões do etanol com as dos combustíveis de petróleo e contabilizar a redução obtida ao fazer a troca. A possível aprovação em 2026 está relacionada a esse cálculo ambiental, uma etapa que poderá facilitar a adoção do etanol no transporte marítimo. Segundo o Globo Rural, a expectativa é que a IMO aprove o padrão para o combustível produzido a partir da cana ainda neste ano.
Triângulo reúne produção e usinas
Para o Triângulo Mineiro, a oportunidade está na possibilidade de fornecer combustível para esse novo mercado. A região concentra uma parcela expressiva da produção canavieira e reúne usinas que já fabricam etanol.
Segundo a Agência Minas, o Triângulo é a principal região produtora de Minas Gerais, com participação de 68% na produção estadual. Na safra 2025/2026, o estado processou 74 milhões de toneladas de cana-de-açúcar e produziu 2,67 bilhões de litros de etanol, conforme dados da Siamig citados pelo governo mineiro.
A estrutura industrial está distribuída por municípios como Uberaba, Santa Vitória, Canápolis, Capinópolis, Ituiutaba, Limeira do Oeste, Frutal, Conceição das Alagoas, Delta e Araporã. A presença de usinas nessas cidades mostra como a abertura de um novo mercado para o etanol poderá beneficiar diferentes pontos do Triângulo Mineiro.
Caso as empresas de navegação ampliem o consumo de etanol, as usinas da região poderão disputar contratos de fornecimento. Essa possibilidade sustenta a ligação com a economia do Triângulo, embora ainda não haja estimativa de volume de vendas ou de receita para os produtores locais.
Vale prevê navios movidos a etanol em 2029
O uso do biocombustível na navegação de longa distância já aparece em um projeto anunciado pela Vale. Em abril, a mineradora informou um acordo com a chinesa Shandong Shipping Corporation para o afretamento de dois navios que terão o etanol como combustível principal, com entregas previstas a partir de 2029.
As embarcações terão 340 metros de comprimento e capacidade para transportar 325 mil toneladas. Seus motores também poderão utilizar metanol e óleo combustível pesado. Os contratos terão duração de 25 anos, com opção para mais navios.
O projeto mostra como o etanol poderá ser utilizado efetivamente para movimentar grandes embarcações. A Vale, porém, não anunciou nesse comunicado contratos de fornecimento com usinas do Triângulo Mineiro.
Oportunidade depende de demanda e logística
A adoção do etanol pelo transporte marítimo poderá diversificar os compradores da produção regional. Para transformar essa perspectiva em negócios, será necessário combinar demanda das empresas de navegação, preços competitivos e estrutura logística para transportar o combustível das usinas até os pontos de abastecimento.
A aprovação da referência ambiental poderá ajudar nesse processo, mas o impacto sobre investimentos, produção e empregos dependerá da escala de utilização do etanol e da participação das usinas do Triângulo nesse mercado.

