O Instituto de Previdência dos Servidores Públicos Municipais de Uberlândia (IPREMU) é o órgão responsável por gerir as aposentadorias e pensões dos servidores efetivos da Prefeitura. Ele administra um patrimônio formado por contribuições mensais dos trabalhadores e do município, aplicando esses recursos em investimentos que devem garantir o pagamento futuro dos benefícios. Qualquer perda financeira, portanto, impacta diretamente o patrimônio previdenciário dos servidores.
A crise de confiança em torno do IPREMU ganhou uma nova camada após a divulgação da reportagem do UOL sobre desvios em fundos ligados ao grupo Master/Foco DTVM. A repercussão provocou uma corrida por explicações — e abriu uma disputa pública entre a gestão atual, o ex-prefeito Gilmar Machado e o diretor-presidente André Goulart, que foi presencialmente à Câmara de Uberlândia para se antecipar a uma possível convocação.
No centro da controvérsia está a pergunta que ainda não tem resposta consensual: quando foram feitos os investimentos que resultaram nas perdas do IPREMU e quem tem responsabilidade direta sobre eles? A reconstrução dos fatos, a partir dos documentos, das notas oficiais e da fala de Goulart na Câmara, mostra que as três narrativas não se encaixam.

As versões apresentadas
1) A nota da Prefeitura: culpa da gestão 2013–2016
A Prefeitura afirma que o investimento citado pelo UOL foi realizado entre 2013 e 2016, na administração do ex-prefeito Gilmar Machado. Segundo o comunicado, a aplicação não tinha relação com o Banco Master, mas sim com fundos administrados pela Foco DTVM, que mais tarde seria associada a sócios ligados ao Master.
A gestão atual reforça que denunciou as operações aos órgãos de controle em 2017, o que teria contribuído para a Operação Encilhamento. A nota também lembra a CPI realizada pela Câmara naquele ano e diz ter registrado boletim de ocorrência contra a circulação de informações falsas.
2) A nota de Gilmar Machado: o Master nem existia
Gilmar reagiu rapidamente. Em nota, disse ser “incorreto e irresponsável” associar o caso à sua administração, porque o Banco Master só iniciou suas atividades em 2018, dois anos após o fim de seu mandato. Ele afirma que não existe qualquer ato administrativo de sua gestão vinculado aos investimentos citados.
A argumentação, porém, desconsidera que a investigação da PF menciona operações da Foco DTVM e fundos ligados ao antigo Banco Máxima, que já atuavam antes da criação formal do Master. Ainda assim, sua resposta revela um movimento político de autoproteção: fechar qualquer possibilidade de associação ao episódio.
3) A fala de André Goulart: perdas maiores e defesa da situação atual
Durante a sessão, André Goulart apresentou uma terceira versão. Disse que o IPREMU não possui recursos aplicados no BRB e que a perda histórica não foi de R$ 47 milhões, mas de R$ 97 milhões, corrigindo o número divulgado na imprensa.
Defendeu que os investimentos foram feitos “em bancos de primeira linha” e afirmou que o IPREMU está hoje “absolutamente equilibrado”. Goulart reforçou a narrativa da atual administração de que os problemas são antigos e que as medidas corretivas foram tomadas a partir de 2017.
Onde as versões se chocam
A comparação das três narrativas revela contradições importantes:
• Sobre quando ocorreu o investimento: A prefeitura afirma que foi entre 2013 e 2016; Gilmar diz que não há possibilidade; Goulart cita perdas antigas, mas sem datá-las explicitamente.
• Sobre quem tem responsabilidade: A versão da prefeitura imputa ao governo anterior; Gilmar devolve o foco à administração atual; Goulart reforça que a atual gestão agiu para corrigir distorções.
• Sobre a natureza das perdas: Goulart menciona prejuízo de R$ 97 milhões, maior que o divulgado inicialmente — o que amplia a dimensão do problema.
• Sobre o vínculo com o Master: A prefeitura nega qualquer relação direta; Gilmar usa a data de criação do banco como argumento de defesa; a PF, porém, trata da Foco DTVM e de fundos associados ao antigo Máxima, o que embaralha a narrativa simplificada.
Linha do tempo — do investimento à crise atual
A seguir, uma síntese cronológica dos principais eventos que ajudam a entender o caso:
2013–2016 — Período apontado pela Prefeitura como origem do investimento.
Fundos administrados pela Foco DTVM entram na carteira de diversos RPPS pelo país. Ainda não há menção pública ao Master, que só surgiria anos depois. O antigo Banco Máxima, do mesmo grupo familiar, já atuava no mercado.
2017 — Denúncias e início das apurações.
Segundo a atual gestão, o IPREMU leva o caso aos órgãos de controle (CVM, MP, PF e TCE-MG). A Câmara realiza uma CPI para tratar dos investimentos.
2018 — Criação formal do Banco Master.
Gilmar usa esse ponto como defesa para afirmar que sua gestão não poderia ter relação com o episódio.
2019 — PF aponta inconsistências em fundos ligados à Foco DTVM.
Relatórios revelam lastros superavaliados, ausência de liquidez e risco previdenciário incompatível.
2020–2024 — Consolidação das investigações.
Uberlândia aparece ao lado de outras cidades atingidas por fundos semelhantes.
17 de novembro de 2025 — Liquidação do Banco Master pelo Banco Central.
O caso ganha repercussão nacional. A reportagem do UOL relaciona o IPREMU aos fundos administrados pela Foco DTVM.
1º de dezembro de 2025 — Guerra de notas.
Prefeitura e ex-prefeito divulgam versões conflitantes sobre a origem das aplicações; Goulart corrige valores e diz que o prejuízo real foi de R$ 97 milhões.
3 de dezembro de 2025 — Câmara entra no caso.
Vereador Igino (PT) anuncia pedido de CPI, acusa o presidente do instituto de “faltar com a verdade” e afirma que a perda decorre de negligência da gestão atual.
O que se sabe até agora — tecnicamente
Apesar do embate político, há um conjunto de elementos objetivos, confirmados por documentos e pelo que já foi divulgado por órgãos federais, que ajudam a esclarecer partes do caso. São pontos que não dependem de versões políticas e podem ser considerados o núcleo factual do que se sabe até aqui:
1. O vínculo investigado não é com o Banco Master em si, mas com a Foco DTVM
A reportagem do UOL, assim como documentos da PF, deixam claro: o alvo das investigações é a Foco DTVM, que administrava fundos utilizados por diversos regimes próprios de previdência. Alguns desses fundos eram lastreados em ativos associados ao antigo Banco Máxima, instituição do mesmo grupo empresarial que mais tarde deu origem ao Banco Master.
Ou seja: a relação é societária e histórica, não operacional direta — motivo pelo qual versões simplificadas acabam gerando confusão.
2. A perda informada por Goulart (R$ 97 milhões) corresponde ao deságio acumulado do fundo
Durante a sessão, André Goulart afirmou que o prejuízo correto não é de R$ 47 milhões, mas de R$ 97 milhões, restando apenas uma parcela recuperável. Esse valor corresponde ao efeito do deságio e da deterioração dos ativos que compunham o fundo.
Esse número é coerente com o que ocorreu em outros municípios atingidos pelo mesmo grupo de fundos investigados.
3. A Operação Encilhamento investigou, desde 2017, esquemas envolvendo fundos estruturados de risco elevado
A operação revelou que diversos RPPS do país aplicaram recursos em fundos com:
- lastros imobiliários superavaliados;
- ausência de liquidez;
- riscos incompatíveis com regras previdenciárias;
- intermediação de DTVMs ligadas a grupos específicos.
Uberlândia aparece no mapa dessas operações — e sua situação é similar à de outras prefeituras que também registraram prejuízos.
4. O IPREMU denunciou irregularidades em 2017, segundo documentos oficiais
A nota da Prefeitura afirma que a atual administração levou o caso ao Ministério Público, TCE-MG, CVM e PF. Essa informação é compatível com o período em que a Encilhamento passou a atuar.
Ainda assim, a denúncia não esclarece quando o investimento original foi aprovado, lacuna que mantém aberta a disputa política.
5. Não há divergência sobre um ponto central: o prejuízo existe
Independentemente de quem o causou, todas as versões — Pre, Gilmar, Goulart e agora vereadores — reconhecem:
→ Houve perda milionária no patrimônio previdenciário dos servidores.
O debate não é sobre a existência da perda, mas sobre quem a originou, se poderia ter sido evitada e por que o fundo permaneceu exposto ao risco por tantos anos.
6. O fundo questionado é parte de um problema nacional
O mesmo conjunto de fundos administrados pela Foco DTVM aparece em investigações que envolvem:
- Rio de Janeiro (Rioprevidência);
- Tocantins (Igeprev);
- Ji-Paraná (RO);
- Goiânia (GO);
- Maceió (AL);
- Palhoça (SC), entre outros.
Ou seja, o desenho da perda é idêntico em diversos municípios, o que reforça que Uberlândia não é um caso isolado — tampouco excepcional.

Gráfico sobre fundos de pensão lesados em investimentos administrados pela Foco DTVM, com destaque para o repasse ao Ipremu. Fonte: UOL.
Contradições e silêncio técnico
Embora as três versões se esforcem para fixar responsabilidades, nenhuma delas responde integralmente à pergunta central: qual foi exatamente a linha do tempo dos investimentos, qual fundo específico gerou o prejuízo e qual foi o critério utilizado para aprová-lo?
A ausência desses elementos técnicos abre espaço para disputas políticas e dificulta a checagem objetiva dos fatos.
Câmara deve entrar no debate
A reunião desta quarta-feira (03) trouxe um elemento político novo — e determinante — para o caso. O vereador Igino (PT) anunciou da tribuna que irá protocolar um pedido de CPI do Ipremu, acusando o presidente do instituto de ter “faltado com a verdade” na sessão anterior, quando tentou atribuir o prejuízo de R$ 97 milhões à gestão municipal de 2013–2016.
Segundo Igino, “o banco que quebrou não tem nem três anos”, argumento que confronta diretamente a versão apresentada pela Prefeitura. Para ele, a perda dos recursos decorre de “negligência da gestão atual”, que deveria ter acompanhado a evolução do fundo e evitado a exposição ao risco.

O clima na Câmara indica que o assunto não deve se encerrar rapidamente. Vereadores pediram uma reunião específica para tratar do IPREMU, e a surpresa da presença de André Goulart reforça o caráter político do tema. A abertura de CPI — ainda em articulação — tende a ampliar o desgaste político, porque desloca o debate das notas oficiais para um ambiente de investigação formal, com convocação de gestores, produção de documentos e pressão pública por responsabilização.
A tendência é que a disputa de versões siga alimentando o debate — especialmente porque o caso envolve três elementos sensíveis: dinheiro dos servidores, investigações federais e um histórico de perdas significativas no instituto.
Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro.
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O que parece ser: O Gilmar do PT fez o exquema ( surpresa 0) e acusa a atual gestão de não ter concertado o rom bo que o PT causou. Onde tem pt tem roub… É impressionante