Quatro anos após desembolsar R$ 704,86 milhões na compra da usina Santa Vitória, no Pontal do Triângulo Mineiro, a Jalles ainda trabalha para fazer daquele que foi o maior investimento de sua história um dos principais motores de crescimento da companhia. Adquirida em 2022 como parte do plano de expansão iniciado após o IPO da empresa, a unidade ampliou em 46% a capacidade produtiva do grupo, mas ainda não alcançou o desempenho operacional projetado quando o negócio foi fechado.
Na época da aquisição, a expectativa era de que a Santa Vitória representasse uma nova fronteira de crescimento para a empresa. Além de diversificar geograficamente a operação, a unidade colocou a Jalles em uma região mais próxima do Porto de Santos, reduzindo custos logísticos para exportação e ampliando a competitividade da companhia no mercado internacional.
A operação envolveu não apenas a usina, mas também a aquisição da ERB MG Energias, responsável pela cogeração de energia elétrica. Inaugurada em 2015, a unidade possui capacidade de moagem de 2,7 milhões de toneladas de cana por safra, capacidade para produzir mais de 240 milhões de litros de etanol por ano e uma área agrícola de aproximadamente 37,6 mil hectares, além de empregar cerca de 1.400 trabalhadores diretos.
Com a aquisição, a capacidade total de moagem da Jalles passou para 8,5 milhões de toneladas por safra, consolidando a Santa Vitória como a terceira unidade industrial do grupo e peça central da estratégia de crescimento horizontal da empresa.
Potencial ainda não entregue
Apesar do potencial da unidade, a expectativa inicial de rápida evolução da produtividade não se confirmou. Analistas do BTG Pactual avaliam que a Santa Vitória ainda não conseguiu entregar o retorno esperado e passou a ser vista pelo mercado como um ativo cujo potencial permanece em construção.
Segundo o banco, justamente por reunir características consideradas únicas, a usina continua sendo vista como um dos ativos mais promissores da companhia. A unidade possui um raio médio de fornecimento de apenas 23 quilômetros, reduzindo custos logísticos, disponibilidade de água para irrigação e capacidade instalada suficiente para se tornar a operação mais lucrativa da Jalles caso alcance os níveis de produtividade das demais unidades do grupo.
A meta da empresa é elevar a produtividade agrícola para cerca de 90 toneladas de cana por hectare, patamar semelhante ao obtido nas usinas goianas. Caso consiga igualar também os custos operacionais das demais plantas, estimativas do BTG apontam que a Santa Vitória poderia acrescentar aproximadamente R$ 135 milhões ao lucro operacional anual, incremento superior a 30% sobre o resultado operacional registrado pela companhia na safra 2024/25.
Outro diferencial da unidade está na geração de energia. A usina possui contrato de comercialização de aproximadamente 270 GWh até 2045, garantindo uma fonte recorrente de receitas que reforça sua atratividade econômica.
Plano de recuperação
Para acelerar a recuperação da unidade, a Jalles vem executando um amplo plano de investimentos. Entre as principais iniciativas estão a renovação dos canaviais, diversificação genética das variedades de cana, ampliação da irrigação e utilização crescente de fertilizantes orgânicos.
Antes da aquisição, mais da metade da área cultivada dependia praticamente de uma única variedade de cana-de-açúcar, aumentando a vulnerabilidade a pragas e oscilações climáticas. Desde então, a empresa intensificou o replantio anual das áreas agrícolas e introduziu novas cultivares com maior potencial produtivo.
A irrigação também se tornou uma das principais apostas. Atualmente, cerca de 19 mil hectares já contam com algum sistema irrigado, e a empresa pretende ampliar essa estrutura com novos pivôs centrais para reduzir os impactos das estiagens e elevar a produtividade dos canaviais.
Outro foco está na expansão da produção de açúcar orgânico, segmento que apresenta demanda crescente no mercado internacional e margens superiores às do açúcar convencional, funcionando como importante diferencial competitivo para a companhia.
Segundo a XP Investimentos, embora ainda existam riscos para o cumprimento das metas de produtividade inicialmente traçadas para Santa Vitória, a administração demonstra confiança de que a unidade poderá se tornar, no futuro, a maior e mais lucrativa operação da empresa, apoiada justamente pelas mudanças implementadas nos últimos anos.
Tarifaço aumenta pressão
O desafio de transformar a Santa Vitória em um ativo altamente rentável ganha ainda mais relevância diante do cenário internacional.
Conforme relatório divulgado recentemente pela XP Investimentos, a Jalles deverá ser a empresa brasileira do agronegócio mais impactada pelo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, em razão de sua maior exposição ao mercado norte-americano.
Nesse contexto, aumentar a eficiência operacional da usina mineira passa a ser ainda mais estratégico para compensar pressões externas sobre receitas e margens, reforçando a importância de um investimento que, quatro anos depois da aquisição, ainda busca entregar todo o potencial que motivou a maior aposta da história da companhia.

