Uma celebração religiosa de Congado terminou em indignação e registro de violência simbólica na tarde do último domingo (5), em Uberlândia. Integrantes do terno Moçambique Conta de Lágrimas denunciam que uma moradora de um condomínio residencial lançou urina contra o grupo enquanto realizavam o trajeto ritualístico de um leilão e terço.
O incidente ocorreu por volta das 17h40, na rua Casimiro de Abreu, em frente ao Condomínio Residencial Rossi. Segundo relatos de testemunhas e vítimas, o grupo realizava a tradicional volta no quarteirão quando uma pessoa lançou o material de um dos apartamentos superiores.
Relato da agressão
Laura, bandeireira do grupo e estudante de História na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), descreve o momento como um choque para a comunidade.
“Estávamos realizando o nosso sétimo leilão e terço. Ao passarmos em frente ao residencial, uma moradora acendeu a luz e jogou uma bacia de urina em nós”, afirma.
Segundo ela, a mulher estava acompanhada de uma criança no momento do ato. “Paramos o trono imediatamente e começamos a tocar em frente ao prédio. Outros moradores ficaram tentando entender o que havia acontecido. É um sentimento de dor e tristeza que ainda não consigo descrever totalmente.”
Resistência
O Brasil reconhece o Congado, manifestação cultural e religiosa de matriz africana, como patrimônio cultural imaterial. Para os integrantes do terno, o episódio não é um fato isolado, mas um reflexo de intolerância religiosa e racismo.
“Nós não estávamos ali brincando, muito menos ofendendo alguém. É uma cultura ancestral de fé. O que cobramos é respeito, porque isso é crime”, diz a bandeireira, lembrando que casos semelhantes, como o arremesso de ovos contra congadeiros, já foram registrados anteriormente na cidade mineira.
Nota de Repúdio
Em nota oficial, o Moçambique Conta de Lágrimas manifestou seu repúdio ao ocorrido no bairro Saraiva e reiterou que o Congado é uma festa de “muita luta e resistência”. O grupo informou que a autora da agressão ainda não foi formalmente identificada, mas que as providências jurídicas cabíveis serão tomadas.
Entenda o contexto jurídico
A legislação brasileira endureceu recentemente as punições para casos do gênero:
Injúria Racial: Desde 2023, a injúria racial foi equiparada ao crime de racismo, tornando-se imprescritível e inafiançável.
Intolerância Religiosa: O Código Penal prevê detenção e multa para quem escarnecer de alguém publicamente por motivo de crença ou impedir cerimônia religiosa.

