Dormir de boca aberta, roncar ou acordar com a boca seca podem parecer hábitos
comuns da infância, mas especialistas alertam que esses sinais podem indicar um
problema com impactos diretos no desenvolvimento cognitivo, comportamento e
crescimento facial de crianças e adolescentes.
Em Uberlândia, o ortodontista Dr. Christian R. Lemes chama a atenção para a
chamada respiração bucal, condição que, quando não diagnosticada precocemente,
pode comprometer desde o rendimento escolar até a formação óssea da face.
De acordo com o especialista, os sinais podem ser observados ainda nos primeiros
meses de vida.
“Se o bebê dorme de boca aberta ou faz ruídos ao respirar, já vale uma
investigação. O desenvolvimento facial é acelerado na primeira infância, então
quanto antes notar, melhor”, explica Dr. Christian.
Além de provocar sono agitado e não reparador, a respiração bucal impede que a
criança atinja as fases profundas do sono, fuortodontistandamentais para a consolidação da
memória e liberação do hormônio do crescimento (GH). Como consequência, o
cérebro não fixa adequadamente o que foi aprendido ao longo do dia.
“No consultório, é comum que crianças com esse quadro apresentem irritabilidade,
dificuldade de concentração ou até hiperatividade. Muitas vezes, elas parecem ter
dormido bem, mas estão cronicamente cansadas, o que compromete a
autorregulação emocional e o desempenho escolar”, afirma.
Outro impacto importante está no crescimento facial. A respiração pela boca pode
alterar a estrutura óssea ao longo do tempo, levando ao desenvolvimento da
chamada “fácies adenoideana”, caracterizada por rosto mais alongado, olheiras,
queixo retraído e falta de espaço para os dentes.
Segundo o ortodontista, problemas como mordida aberta, mordida cruzada e céu da
boca estreito também estão diretamente ligados à respiração inadequada durante o
sono.
“O rosto se molda conforme a função. Se a função é respirar pela boca, a face vai
crescer de forma desequilibrada. Correções simples aos seis anos podem exigir
cirurgias complexas na vida adulta”, alerta.
Um dos desafios para o diagnóstico é a associação equivocada dos sintomas a
quadros alérgicos.
“Muitos pais acreditam que o nariz entupido é apenas uma rinite passageira. O
problema é que a rinite mal tratada obriga a criança a respirar pela boca, e esse
hábito funcional pode alterar permanentemente a estrutura óssea, mesmo quando a
alergia melhora”, explica.

A avaliação ortodôntica precoce, idealmente por volta dos cinco ou seis anos, pode
ajudar na identificação e tratamento do problema. Em alguns casos, aparelhos
específicos são utilizados para expandir o céu da boca, aumentando o espaço para
passagem do ar e favorecendo a respiração nasal.
Exames como a cefalometria (radiografia que avalia a estrutura óssea da face), a
polissonografia (considerada padrão-ouro para diagnóstico de distúrbios do sono) e
a tomografia com análise volumétrica das vias aéreas auxiliam na investigação
multidisciplinar, que pode envolver também otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos.
O principal alerta, segundo o especialista, é que o ronco infantil não deve ser
considerado normal.
“Se o seu filho dorme de boca aberta ou parece constantemente cansado, não olhe
apenas para o comportamento ou para as notas. Observe como ele respira durante
o sono. O problema pode estar na estrutura da face, e a solução começa com o
diagnóstico correto”, finaliza Dr. Christian.

