Uma mulher de 42 anos está internada em estado grave em Belo Horizonte desde dezembro, após fazer uso de uma “caneta emagrecedora” importada do Paraguai e comercializada irregularmente no Brasil. Kellen Oliveira Bretas Antunes deu entrada na unidade hospitalar com dores abdominais severas, quadro que evoluiu para complicações neurológicas associadas a uma intoxicação medicamentosa.
O caso, que envolve o uso de substância sem prescrição médica, expõe os riscos do mercado paralelo de emagrecedores. A paciente utilizou um produto que prometia conter tirzepatida, o mesmo princípio ativo do medicamento Mounjaro, da farmacêutica Eli Lilly, indicado para tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade.
No entanto, diferentemente do original, o produto utilizado não possui registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e não oferece garantias de segurança, eficácia ou procedência.
O produto vindo do país vizinho não se enquadra na categoria de genérico, nem técnica, nem legalmente. Vendidos sob nomes comerciais como Lipoless e T.G., esses fármacos exploram brechas na legislação de patentes do Paraguai, que permite a laboratórios locais produzirem versões próprias da molécula.
Embora a fabricação possa ser legalizada em território paraguaio, a patente da tirzepatida no Brasil pertence exclusivamente à Eli Lilly até 2036. Portanto, a entrada e a venda dessas versões no mercado brasileiro são crimes de contrabando e descaminho, além de infração sanitária.
Como não passam pelo crivo da Anvisa, não há comprovação de que esses produtos sejam bioequivalentes ao original. A falta de fiscalização abre margem para que o consumidor adquira frascos contendo outras substâncias.
Além da incerteza sobre a composição química, a rota do contrabando representa um perigo adicional à saúde pública. Medicamentos biológicos, como a tirzepatida, exigem rigoroso controle de temperatura (cadeia de frio).
O transporte ilegal, feito frequentemente em condições precárias e sem refrigeração, pode degradar a molécula, tornando o medicamento inócuo ou, em casos mais graves, tóxico.
Especialistas alertam ainda para o risco de adulteração. Há relatos de frascos que, para simular a perda de peso rápida, são misturados com anfetaminas, hormônios tireoidianos e estimulantes — substâncias banidas em tratamentos para obesidade devido aos graves efeitos colaterais cardiovasculares e psiquiátricos.
O preço atrativo no mercado paralelo esconde riscos que podem ir da ineficácia do tratamento à morte. Confira orientações para evitar golpes e danos à saúde:
1. Desconfie de preços muito abaixo da tabela Os preços de medicamentos no Brasil são regulados pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos). Descontos agressivos, muito superiores à média de 10% a 20% praticada pelas grandes redes, são o primeiro sinal de irregularidade.
2. Cheque a embalagem e o idioma Pela lei, todo medicamento vendido legalmente no Brasil deve ter rotulagem e bula em português. Embalagens em espanhol, inglês ou outros idiomas indicam que o produto entrou no país sem aprovação da Anvisa.
3. Canal de venda Vendas realizadas exclusivamente por WhatsApp, Instagram ou grupos de redes sociais, sem exigência de receita médica e fora do ambiente de farmácias licenciadas, configuram comércio ilegal.
4. Substâncias proibidas ou experimentais
- Semaglutida manipulada: A Anvisa proibiu a manipulação desta substância (presente no Ozempic). Qualquer anúncio de “Ozempic manipulado” é irregular.
- Retatrutida: Medicamento ainda em fase de testes mundial e não aprovado em nenhum país. Produtos que alegam conter essa substância são falsificações.
