A possível indicação de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência em 2026 acendeu um alerta que vai além da disputa interna da direita. O debate não é sobre preferência pessoal, fidelidade ideológica ou afinidade com nomes. É sobre viabilidade eleitoral.
Os dados disponíveis mostram um cenário relativamente estável no eleitorado brasileiro. Aproximadamente um terço se identifica com o campo lulista ou de esquerda. Outro terço se declara bolsonarista ou alinhado à direita. E há um terceiro grupo, igualmente relevante, formado por eleitores independentes, sem compromisso ideológico fixo.
Esse grupo do meio — o centro político — é quem decide eleições polarizadas.
Não é teoria. É padrão histórico.
Quem vence o centro, vence a eleição.
O problema da rejeição
É nesse ponto que surge o principal entrave da eventual candidatura de Flávio Bolsonaro.
Pesquisas de rejeição indicam índices elevados, na casa dos 51%. Em termos práticos, isso significa dificuldade quase total de diálogo com o eleitor independente.
Rejeição alta não é apenas um dado negativo. É um bloqueio.
Ela impede crescimento fora da base já consolidada e transforma a campanha em um esforço de mobilização da própria bolha — insuficiente para vencer uma eleição nacional.
Quando se observa outros nomes do mesmo campo político, a diferença fica evidente. Tarcísio de Freitas, por exemplo, aparece com rejeição significativamente menor, abaixo dos 40%.
Isso não garante vitória. Mas amplia o campo de disputa.
Menor rejeição significa maior possibilidade de atrair eleitores que não se identificam nem com Lula nem com Bolsonaro.
Não se trata de moderação por convicção. Trata-se de estratégia.
Eleição se ganha somando, não repelindo.
Lula entende esse jogo
Esse raciocínio não é novo — e Luiz Inácio Lula da Silva sempre demonstrou compreender bem essa lógica.
Em 2002, escolheu José Alencar, empresário e nome aceito pelo mercado, como vice.
Em 2022, repetiu a estratégia ao se aliar a Geraldo Alckmin, um ex-adversário histórico, para sinalizar estabilidade e ampliar diálogo com o centro.
O objetivo foi claro nas duas ocasiões: reduzir rejeição e ocupar o espaço decisivo do eleitor moderado.
Enquanto isso, a direita corre o risco de insistir em um projeto que fala majoritariamente para quem já está convencido.
Nesse cenário, o adversário não precisa fazer campanha intensa. Basta assistir ao erro do outro lado.
Mercado reage a risco, não a ideologia
A leitura política também ajuda a explicar movimentos recentes do mercado financeiro.
Sinais de um cenário eleitoral com maior probabilidade de continuidade do atual governo foram acompanhados por alta do dólar e queda expressiva da Bolsa.
Não se trata de torcida política.
O mercado reage a risco.
A interpretação é simples: uma candidatura com alta rejeição aumenta as chances de vitória de Lula. Diante disso, investidores buscam proteção.
Dólar sobe. Bolsa cai.
É uma reação defensiva.
O efeito institucional no STF
O impacto de uma escolha equivocada vai além da economia e alcança diretamente o desenho institucional do país.
Hoje, uma parcela relevante do Supremo Tribunal Federal já foi indicada por governos do PT. Esse número tende a crescer nos próximos anos. Entre 2028 e 2030, estão previstas ao menos três aposentadorias na Corte, o que abre espaço para novas nomeações presidenciais e pode alterar de forma significativa a correlação de forças no tribunal.
Caso Lula vença a eleição de 2026, ele terá a prerrogativa de indicar ministros em sequência, ampliando de forma consistente a maioria do PT dentro do STF.
Isso não é detalhe técnico. O Supremo é ator central nas grandes decisões políticas, eleitorais e institucionais do país. Uma maioria consolidada influencia interpretações constitucionais, define limites de atuação dos outros Poderes e arbitra conflitos políticos sensíveis.
Ao mesmo tempo, o tabuleiro do Congresso também se reorganiza. Há movimentos claros para o retorno de lideranças históricas do PT ao centro do poder legislativo. Entre eles, ganha força nos bastidores a possibilidade de José Dirceu disputar uma vaga de deputado federal em 2026 e, a partir disso, buscar a presidência da Câmara dos Deputados.
O cenário que se desenha é de alinhamento institucional: Executivo fortalecido, articulação sólida no Legislativo e maioria confortável no Judiciário.
Não se trata de juízo de valor. Trata-se de leitura de consequência.
Uma eleição perdida em 2026 não termina em 1º de janeiro de 2027. Ela produz efeitos institucionais duradouros, que atravessam governos e condicionam o ambiente político por muitos anos.
O custo de errar
Por isso, o debate não pode ser tratado como uma disputa de preferências pessoais.
Errar na escolha de 2026 não significa apenas perder uma eleição.
Significa comprometer 2030, 2034 e 2038.
Significa entregar uma geração inteira de poder político por incapacidade de leitura do cenário.
Não é sobre gostar ou não de um nome.
É sobre escolher quem tem chance real de vencer.

Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro.
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