Flávio Roscoe será a prova de fogo do bolsonarismo em Minas

Candidato do PL disputa sua primeira eleição e pode mostrar nas próximas pesquisas a capacidade do núcleo bolsonarista de transferir votos em Minas Gerais.

Adelino Júnior
Flávio Bolsonaro e Flávio Roscoe aparecem lado a lado durante gravação de vídeo, em agenda política que reforça a candidatura de Roscoe ao Governo de Minas. Roscoe vira plano A do bolsonarismo em Minas após reviravoltas de Cleitinho.
Flávio Bolsonaro e Flávio Roscoe gravam vídeo durante agenda política que reforça a candidatura do PL ao Governo de Minas.

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Flávio Roscoe entrou no tabuleiro eleitoral de Minas Gerais com uma missão que vai além da própria candidatura. Seu desempenho nas próximas pesquisas será também um teste para medir a força eleitoral do bolsonarismo no estado.

Roscoe é conhecido no setor empresarial, mas estreia nas urnas. Empresário do setor têxtil, foi presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e agora disputa o Governo de Minas pelo PL.

O desafio será transformar estrutura partidária, exposição e identificação com o bolsonarismo em intenção de voto.

Direita e bolsonarismo não são a mesma coisa

Antes de analisar o desempenho de Roscoe, uma distinção é fundamental. Eleitor de direita e eleitor bolsonarista não são necessariamente a mesma coisa.

O bolsonarismo está inserido no campo da direita. Mas nem todo eleitor de direita se considera bolsonarista.

A direita mineira é mais ampla. Nela estão eleitores conservadores, liberais e outros grupos que podem votar em candidatos desse campo sem necessariamente manter uma identificação política com Bolsonaro.

Portanto, o desempenho de Roscoe não servirá para medir o tamanho da direita em Minas.

O que estará em teste é algo mais específico: a capacidade do núcleo bolsonarista de concentrar e transferir votos para um candidato diretamente identificado com esse movimento.

Essa diferença será fundamental para interpretar as próximas pesquisas.

Roscoe pode não conseguir capturar todo o eleitorado de direita e isso não significaria, necessariamente, um enfraquecimento da direita no estado. A questão será observar quanto do eleitorado especificamente bolsonarista estará disposto a seguir o candidato do PL.

Quanto vale o voto bolsonarista em Minas?

Esse talvez seja o ponto mais interessante da candidatura de Roscoe.

O núcleo mais identificado com o bolsonarismo demonstrou elevado nível de mobilização nas últimas disputas eleitorais. Até aqui, parte desse eleitorado encontrou no senador Cleitinho uma candidatura próxima de suas posições políticas.

A entrada de Roscoe altera essa configuração.

Agora, o eleitor bolsonarista tem na disputa pelo Governo de Minas um candidato do PL. Roscoe também poderá explorar durante a campanha sua ligação com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

É justamente aí que começa a prova de fogo.

Se Roscoe avançar nas próximas pesquisas e conseguir fechar setembro com algo em torno de 12% das intenções de voto, haverá um indicador relevante da capacidade desse núcleo político de se organizar eleitoralmente em torno de uma candidatura própria em Minas.

Os cerca de 12% não representam o tamanho da direita mineira. Também não devem ser tratados como uma fronteira matemática entre sucesso e fracasso.

O percentual funciona como uma referência política para acompanhar a capacidade de transferência de votos para um candidato que começou a campanha ainda pouco conhecido eleitoralmente.

Caso Roscoe permaneça muito distante desse patamar mesmo depois de ganhar exposição, estrutura partidária e associação direta com o bolsonarismo, o resultado também oferecerá uma informação importante.

A pergunta, nesse caso, não seria sobre a sobrevivência eleitoral da direita mineira.

Seria outra: até que ponto o bolsonarismo consegue transformar sua identidade política em votos para um candidato escolhido pelo próprio grupo?

Cleitinho é a principal variável dessa equação

Existe, porém, uma peça fundamental nesse tabuleiro: Cleitinho.

O senador construiu uma relação importante com o eleitorado de direita e também com parte dos eleitores identificados com o bolsonarismo.

No debate da Band, Cleitinho voltou a fazer acenos a esse campo. Ao mesmo tempo, adotou uma postura mais conciliadora em determinados momentos e também procurou conversar com eleitores que estão fora do bolsonarismo.

Essa estratégia deixa clara outra diferença entre as duas candidaturas.

Cleitinho tenta ocupar um espaço mais amplo dentro do eleitorado. Roscoe entra na campanha com a oportunidade de buscar uma identificação mais direta com o núcleo bolsonarista.

Isso cria uma disputa particular dentro da própria direita mineira.

Cleitinho tem a vantagem de já ser conhecido e chegar à campanha com desempenho consolidado nas pesquisas. Roscoe terá o PL, sua estrutura partidária e a associação direta com o grupo político bolsonarista.

A transferência desse eleitorado, portanto, não é automática.

Um eleitor pode se considerar bolsonarista e ainda assim decidir votar em Cleitinho para governador. Da mesma maneira, um eleitor pode ser de direita sem qualquer identificação com o bolsonarismo e escolher outro candidato desse campo político.

É exatamente essa divisão que as próximas pesquisas começarão a revelar.

Primeiro debate mostrou o tamanho do desafio

O debate da Band também deixou sinais sobre o ponto de partida de Roscoe.

O candidato do PL teve uma participação mais discreta e ainda enfrenta o desafio de construir uma identidade eleitoral para além de sua trajetória empresarial.

Um debate, porém, não define uma campanha.

Roscoe terá pela frente semanas de exposição, estrutura partidária e participação de lideranças nacionais do PL para ampliar seu nível de conhecimento entre os mineiros.

Por isso, setembro será particularmente importante.

Depois de algumas semanas de campanha, será possível comparar os levantamentos e verificar se a exposição conseguiu transformar Roscoe em uma candidatura capaz de concentrar o núcleo bolsonarista.

Mais importante ainda será observar de onde eventualmente virá esse crescimento.

Se Roscoe avançar enquanto Cleitinho recua, haverá um primeiro sinal de migração dentro desse eleitorado. Se ambos crescerem ou mantiverem seus espaços, a interpretação será diferente.

As pesquisas precisarão mostrar como as peças estão se movimentando.

A prova será de transferência de votos

Roscoe começa a eleição diante de uma situação política pouco comum.

Ele possui trajetória empresarial e institucional, mas não carrega um histórico eleitoral próprio que permita medir previamente sua força nas urnas.

Isso transforma sua candidatura em um teste particularmente interessante.

O PL terá um candidato próprio ao Governo de Minas e poderá associá-lo diretamente ao seu projeto nacional. A partir daí, será possível observar quanto dessa identificação chega efetivamente às urnas.

Por isso, um eventual desempenho abaixo das expectativas de Roscoe não poderá ser interpretado simplesmente como uma derrota da extrema direita.

Da mesma forma, um crescimento expressivo não significará que todo o eleitorado conservador mineiro aderiu ao bolsonarismo.

A medição é mais específica.

Roscoe será um teste da capacidade do bolsonarismo de transferir votos para um candidato próprio em Minas Gerais.

As peças estão colocadas no tabuleiro. Agora, serão as pesquisas das próximas semanas que começarão a mostrar como esse eleitorado está se reorganizando.

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