Vencer a eleição para governador de Minas Gerais em 2026 vai parecer um prêmio. Alguns anos depois, essa mesma vitória pode ser lembrada como o início de uma das missões mais duras da política brasileira.
Não porque o Estado tenha parado de funcionar. Mas porque os desafios que aguardam o próximo ocupante do Palácio Tiradentes são grandes o suficiente para desgastar qualquer liderança — independentemente do partido ou do tamanho da bancada.
Os números que ninguém quer herdar
A própria Lei de Diretrizes Orçamentárias enviada pelo governo mineiro prevê déficit de R$ 7,67 bilhões para 2027. Antes disso, o orçamento de 2025 já projetava déficit de R$ 7,1 bilhões. O de 2026 estimava resultado negativo de R$ 5,2 bilhões.
Ou seja: mesmo após anos de recuperação fiscal, Minas Gerais convive com déficits bilionários previstos nos seus próprios instrumentos de planejamento.
A dívida consolidada do Estado gira em torno de R$ 187 bilhões. Aproximadamente R$ 179 bilhões são devidos à União — um dos maiores passivos subnacionais do país.
Somente em 2025, Minas empenhou R$ 6,57 bilhões para pagamento de juros e amortizações. Em 2024, esse valor havia sido de R$ 3,8 bilhões. Em um ano, o custo financeiro praticamente dobrou.
O teto que aperta
A despesa total de pessoal alcançou R$ 53,9 bilhões em 2025 — equivalente a 48,22% da Receita Corrente Líquida. O limite máximo da Lei de Responsabilidade Fiscal é de 49%.
Em outras palavras: o Estado opera a menos de um ponto percentual do teto legal.
Qualquer reajuste salarial relevante para educação, segurança pública ou saúde impactará diretamente um orçamento já pressionado.
A conta silenciosa
Existe uma despesa que cresce sem precisar de votação, de decreto ou de pressão sindical.
O déficit previdenciário dos regimes civil e militar atingiu R$ 19,74 bilhões em 2025. É uma sangria permanente que reduz ano a ano a capacidade de investimento em áreas essenciais.
Enquanto isso, a população cobra mais hospitais, mais escolas, mais segurança, mais estradas.
A maior malha, o maior problema
As estradas talvez representem o símbolo mais visível desse paradoxo. Minas possui a maior malha rodoviária do Brasil — dezenas de milhares de quilômetros que exigem manutenção permanente, recuperação, duplicações e novos investimentos logísticos.
As demandas são legítimas. Os recursos, limitados.
A lógica perversa da política
Aqui mora o principal risco político para quem assumir o governo em 2027.
Boa parte das medidas necessárias para garantir sustentabilidade fiscal, modernizar a máquina pública e retomar os investimentos exige decisões impopulares.
Reformas produzem desgaste imediato. Os resultados, quando aparecem, costumam surgir depois do mandato.
Durante décadas, governar Minas foi trampolim para voos maiores na política nacional.
A partir de 2027, pode se tornar um teste de resistência.
O próximo governador precisará fazer aquilo que quase nenhum político gosta: tomar decisões duras, enfrentar pressões de todos os lados e conviver com a possibilidade de que os resultados apareçam só depois do fim do seu governo.
Ganhar a eleição será difícil. Mas governar Minas Gerais pode ser ainda mais.
Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro. Envie informações e sugestões à coluna pelo WhatsApp: (34) 99791-0994.

