O último grande debate presidencial antes do primeiro turno deveria
colocar frente a frente os candidatos ao Palácio do Planalto. No fim,
produziu uma das cenas mais incomuns da eleição de 2026: não houve
debate.
A sucessão de acontecimentos desta quinta-feira (1º) envolveu a
ausência previamente anunciada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), decisões de última hora do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e
do Supremo Tribunal Federal (STF), a desistência de Flávio Bolsonaro
(PL) e, finalmente, o cancelamento do programa pela TV Globo.
Mais do que procurar um único responsável, a cronologia ajuda a
entender uma noite marcada por cálculo eleitoral, judicialização e
disputa pela narrativa do cancelamento.
LULA TROCA O DEBATE PELO FLOW
O primeiro movimento ocorreu antes da confusão da noite de quinta-feira.
Lula decidiu não participar do debate e optou por conceder uma
entrevista ao Flow Podcast praticamente no mesmo horário em que
ocorreria o confronto na televisão.
No podcast, o presidente apresentou sua própria justificativa. Disse
considerar os debates com vários candidatos “infrutíferos”,
argumentando que o formato dificulta o aprofundamento das discussões e
favorece provocações e tentativas de produzir frases de efeito. Lula
também afirmou preferir um eventual confronto de segundo turno, com
apenas dois candidatos.
Politicamente, a decisão colocou Lula em um ambiente completamente
diferente daquele que encontraria na Globo.
No debate, estaria sujeito a perguntas e confrontos diretos dos
adversários, dentro de regras rígidas de tempo. No Flow, participou de
uma entrevista longa, com outra dinâmica e sem adversários no estúdio.
Isso não prova, por si só, qual foi a motivação interna da campanha.
Mas mostra uma escolha objetiva: Lula preferiu a entrevista individual
ao confronto coletivo do primeiro turno.
A JUSTIÇA ENTRA NO DEBATE
A ausência de Lula, porém, não significaria que seu nome desapareceria
do programa.
A Globo havia estabelecido uma dinâmica para lidar com candidatos
convidados que não comparecessem. Uma decisão da ministra Estella
Aranha, do TSE, determinou que a emissora não mantivesse o púlpito
vazio identificado com o nome de Lula nem permitisse perguntas
direcionadas ao candidato ausente.
Foi a primeira grande alteração de última hora.
E não seria a única.
FLÁVIO DESISTE E ACUSA CENSURA
Flávio Bolsonaro estava confirmado no debate. Sua campanha, inclusive,
avaliava politicamente como explorar a ausência de Lula.
Mas havia outro lado nessa estratégia.
Segundo relatos de bastidores publicados pela imprensa, auxiliares
também consideravam o risco de Flávio, sem Lula no palco,
transformar-se no principal alvo dos demais adversários.
Depois da decisão envolvendo a forma como a Globo poderia tratar a
ausência do presidente, Flávio anunciou que não participaria mais.
Publicamente, atribuiu sua decisão à atuação do TSE, classificando a
determinação como “censura”.
Essa é a justificativa oficial apresentada pelo candidato.
O temor de se transformar no principal alvo do programa aparece como
informação de bastidor sobre as discussões da campanha — e deve ser
tratado como tal.
ENTÃO ENTRA RENAN SANTOS
Enquanto isso, outra disputa corria nos tribunais.
Renan Santos (Missão) buscava participar do debate. O ministro Gilmar
Mendes, do STF, determinou sua inclusão no encontro promovido pela
Globo.
A proximidade temporal entre essa decisão e a desistência de Flávio
criou imediatamente outra narrativa.
Renan passou a sustentar que o adversário teria desistido para evitar
enfrentá-lo.
É uma versão politicamente poderosa, principalmente nas redes sociais.
Mas há uma diferença importante entre uma narrativa de campanha e
aquilo que a cronologia permite estabelecer como fato.
As informações disponíveis mostram decisões e anúncios ocorrendo em
intervalo muito curto. Por isso, afirmar categoricamente que Flávio
desistiu porque Renan entrou ultrapassa aquilo que os fatos
disponíveis permitem comprovar.
GLOBO CANCELA TUDO
Com o cenário alterado sucessivamente por decisões judiciais, a Globo
decidiu não realizar mais o debate.
A emissora afirmou que as decisões tomadas pouco antes do programa
provocaram “insegurança jurídica” e representaram, na avaliação da
empresa, interferência na liberdade dos veículos para organizar
debates eleitorais.
Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo) já
estavam na emissora quando o cancelamento foi confirmado.
O palco preparado para o principal confronto da reta final acabou
desmontado sem que os candidatos trocassem uma única pergunta.
ENQUANTO A GLOBO CANCELAVA, LULA ESTAVA NO FLOW
A imagem política daquela noite acabou sendo outra.
Em vez dos principais candidatos confrontando propostas diante das
câmeras da maior emissora do país, Lula apareceu no Flow. Flávio
também passou a se comunicar diretamente pelas redes.
É um retrato de uma mudança que ultrapassa o episódio desta
quinta-feira: candidatos competitivos conseguem hoje falar diretamente
para grandes audiências digitais sem necessariamente se submeter ao
formato tradicional de debate televisivo.
Isso cria uma vantagem evidente para qualquer campanha: é possível
escolher ambientes considerados mais convenientes para sua estratégia.
Mas também produz uma consequência para o eleitor.
Entrevista e debate cumprem funções diferentes.
Em uma entrevista, o candidato responde ao entrevistador. Em um
debate, precisa responder também aos adversários, que possuem
interesse direto em questionar suas propostas, contradições e
histórico.
NO FIM, TODOS DISPUTARAM A VERSÃO DO DEBATE QUE NÃO EXISTIU
Depois do cancelamento, começou outro confronto — o das narrativas.
Lula defendeu que debates desse formato pouco acrescentam e preferiu o Flow.
Flávio responsabilizou decisões judiciais, falou em censura e criticou
a ausência de Lula.
Renan tentou transformar sua inclusão no programa em explicação para a
desistência de Flávio.
A Globo responsabilizou a insegurança jurídica provocada pelas
decisões de última hora.
Cada lado terminou a noite oferecendo ao eleitor sua própria explicação.
O DEBATE QUE NÃO ACONTECEU TALVEZ DIGA MAIS SOBRE A CAMPANHA DO QUE PARECE
A quinta-feira terminou sem vencedor de debate porque, simplesmente,
não houve debate.
O que houve foi uma sequência reveladora sobre a eleição presidencial de 2026.
Lula avaliou que poderia prescindir do confronto e escolheu uma
entrevista digital. Flávio, inicialmente disposto a participar,
abandonou o encontro depois das decisões judiciais e apresentou a
censura como justificativa. Renan conquistou judicialmente espaço em
um palco que deixou de existir. A Globo decidiu que as mudanças de
última hora tornavam inviável manter o programa.
Não é necessário escolher uma das narrativas para compreender o episódio.
A cronologia mostra algo mais interessante: antes mesmo de os
candidatos disputarem entre si no palco, campanhas, tribunais e
emissora já disputavam quais seriam as condições daquele confronto.
No fim, ninguém debateu.
E, a três dias da votação do primeiro turno, o eleitor perdeu uma das
últimas oportunidades de assistir aos candidatos sendo obrigados a
confrontar diretamente propostas, críticas e contradições diante dos
adversários.

