Após R$ 32 milhões para clubes da capital, times do interior cobram Simões: “Minas não é só a capital”

Boa Esporte pede critérios públicos e inclusão dos clubes do interior após anúncio de R$ 32 milhões para Atlético, Cruzeiro e América; Democrata também reagiu

Adelino Júnior
Boa Esporte cobra isonomia em patrocínios do Governo de Minas aos clubes de futebol.
Boa Esporte publicou manifesto nesta quarta-feira (30) cobrando critérios públicos e participação dos clubes do interior nos patrocínios de estatais mineiras.Divulgação

O anúncio de R$ 32 milhões em patrocínios de empresas estatais para Atlético, Cruzeiro e América abriu uma nova frente de pressão sobre o governador de Minas Gerais e candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD). Desta vez, a cobrança vem de dentro do próprio futebol mineiro.

Clubes do interior começaram a questionar os critérios adotados pelo Estado para definir quem será contemplado com os recursos.

Nesta quarta-feira (30), o Boa Esporte, de Ituiutaba, publicou um manifesto com uma frase que sintetiza a insatisfação:

“Minas não é só a capital.”

https://www.instagram.com/p/Dd7P2pfGxfY/?stkn=dGh6bW9nczRlZmlv

A manifestação acontece um dia depois de Simões anunciar que Atlético e Cruzeiro terão R$ 15 milhões cada em patrocínios, enquanto o América receberá R$ 2 milhões. Os recursos virão de verbas destinadas à publicidade e patrocínio de empresas estatais, entre elas Cemig e Codemge/Codemig.

O anúncio foi apresentado pelo governo como uma resposta à perda de receitas dos clubes provocada pela proibição das casas de apostas de quota fixa no país. Segundo o governo, os contratos ainda serão formalizados e terão contrapartidas.

Boa Esporte questiona concentração dos recursos

No manifesto divulgado nas redes sociais, o Boa Esporte contrapõe os três clubes inicialmente contemplados aos 853 municípios mineiros.

“3 clubes contemplados. 853 municípios em Minas”, afirma uma das peças divulgadas pelo clube.

O Boa sustenta que o futebol do interior desempenha papel importante na formação de atletas, na geração de empregos e na economia das cidades.

“É no interior que o futebol começa”, diz outra peça da campanha.

O clube também incluiu o futebol feminino na cobrança e defendeu que eventuais investimentos estaduais não fiquem concentrados em Belo Horizonte.

Ao final, o Boa apresenta quatro reivindicações: uma audiência intermediada pela Federação Mineira de Futebol com o Governo de Minas e as estatais; inclusão dos clubes dos Módulos I e II, da Segunda Divisão e do futebol feminino; adoção de critérios objetivos e públicos com cotas por divisão; e recursos destinados às categorias de base e ao futebol feminino.

A mensagem central é direta:

“Não pedimos privilégio. Pedimos isonomia.”

Democrata também reagiu

O Boa não foi o único.

O Democrata de Sete Lagoas, que conquistou neste ano o acesso ao Módulo I do Campeonato Mineiro de 2027, também criticou a distribuição inicialmente anunciada.

Em publicação nas redes sociais, o clube reclamou da ausência das equipes do interior e afirmou que elas acabam lembradas para o pagamento de tributos e da conta de energia, mas não no momento da distribuição dos patrocínios.

Há, porém, uma diferença relevante entre os casos.

Segundo informações publicadas pelo Hoje em Dia, o Democrata não mantinha contrato de patrocínio com uma casa de apostas e, portanto, não perdeu essa fonte de receita em consequência da nova medida federal.

Esse ponto coloca no centro da discussão justamente o critério que será adotado pelo Estado: o objetivo do programa é exclusivamente compensar quem perdeu contratos com bets ou estabelecer uma política mais ampla de patrocínio ao futebol mineiro?

Uberlândia e Athletic estão na fila

O governo já sinalizou que o programa não ficará restrito aos três clubes da capital.

Simões afirmou que haverá conversas com o Uberlândia Esporte Clube, campeão brasileiro da Série D e que disputará a Série C em 2027, e com o Athletic, de São João del-Rei, atualmente na Série B.

Os dois clubes também mantinham contratos com empresas do setor de apostas. Os valores, entretanto, ainda não foram anunciados.

Até o momento, portanto, há uma diferença objetiva: Atlético, Cruzeiro e América já conhecem os valores reservados — R$ 15 milhões, R$ 15 milhões e R$ 2 milhões, respectivamente — enquanto Uberlândia e Athletic ainda dependem das negociações.

Segundo o governo, as condições serão negociadas individualmente, levando em consideração inclusive os contratos comerciais já existentes em cada clube.

A discussão agora é sobre o critério

É aqui que o anúncio de Simões ganha uma segunda dimensão.

Inicialmente, o debate estava concentrado na decisão do governo estadual de utilizar verbas publicitárias das estatais para amenizar a perda dos patrocínios das bets.

Agora, a reação do interior coloca outra pergunta sobre a mesa:

quem terá direito a esse dinheiro e com base em quais critérios?

Se o objetivo for exclusivamente compensar os clubes diretamente atingidos pelo fim dos contratos das casas de apostas, existe um universo específico de possíveis beneficiários.

Se, por outro lado, Cemig, Codemge e Codemig passarem a utilizar seus orçamentos de publicidade para fomentar de maneira mais ampla o futebol mineiro, a cobrança de Boa Esporte, Democrata e de outros clubes por critérios públicos tende a ganhar outro peso.

O próprio desenho anunciado pelo governo já estabelece diferenças significativas. Atlético e Cruzeiro terão R$ 15 milhões cada. O América, R$ 2 milhões. Athletic e Uberlândia terão valores ainda a definir.

Ainda não foi divulgado um modelo geral de cotas que estabeleça, por exemplo, valores por divisão, tamanho de torcida, exposição das marcas, perda efetiva de receitas com as bets ou alcance regional.

E é justamente esse espaço ainda não preenchido que alimenta a reação dos clubes do interior.

Uma cobrança que pode crescer

A publicação do Boa Esporte transforma o episódio em uma discussão que vai além dos cinco clubes inicialmente mencionados pelo governo.

O clube de Ituiutaba pede explicitamente a participação de equipes dos Módulos I e II, da Segunda Divisão e do futebol feminino.

A reivindicação amplia significativamente o universo de possíveis beneficiários — e também o tamanho da conta.

O governo, por sua vez, sustenta que os R$ 32 milhões anunciados não saem dos orçamentos da Saúde ou da Educação. Segundo Simões, são recursos que já pertencem às rubricas de publicidade e patrocínio das empresas estaduais e estão sendo direcionados para contratos comerciais com os clubes.

Isso também significa que a discussão não termina simplesmente na existência do recurso. Passa pela finalidade publicitária, pelo retorno esperado para as estatais e pelos critérios utilizados para selecionar os patrocinados.

A reação do interior mostra que essas respostas serão cobradas.

Afinal, depois de Atlético, Cruzeiro e América terem valores definidos e Uberlândia e Athletic serem chamados para negociar, a pergunta dos demais clubes mineiros passou a ser inevitável:

qual é a regra para entrar nessa conta?

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