Entenda o que é a dosimetria e o veto derrubado no Congresso

Decisão reacende debate sobre penas e limites do Judiciário no Brasil

Adelino Júnior
Deputados federais comemoram e registram o momento com celulares no plenário da Câmara após votação que derrubou veto presidencial.
Deputados comemoram no plenário após derrubada de veto presidencial sobre regras da dosimetria da pena.Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados
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A derrubada de um veto presidencial no Congresso Nacional recolocou no centro do debate político um termo técnico do Direito Penal: a dosimetria da pena. Embora pouco conhecido fora do meio jurídico, o conceito tem impacto direto em condenações e no tamanho das punições aplicadas pela Justiça.

Na prática, o que o Congresso discutiu — e acabou alterando — envolve justamente até onde vai o poder do juiz na hora de definir uma pena.

O que é dosimetria da pena

A dosimetria é o processo utilizado pelo juiz para calcular a pena de um condenado. Não se trata de um valor fixo. A legislação estabelece um intervalo mínimo e máximo, e cabe ao magistrado definir, dentro dessa faixa, qual será a punição final.

Esse cálculo leva em conta três etapas principais:

– Circunstâncias do crime (gravidade, motivação, consequências)
– Perfil do réu (antecedentes, comportamento, reincidência)
– Atenuantes e agravantes previstas em lei

Ou seja, dois réus condenados pelo mesmo crime podem receber penas diferentes, dependendo da análise feita pelo juiz.

O que muda com o projeto

O projeto que voltou à pauta após a derrubada do veto busca limitar a liberdade do juiz nessa dosimetria. A proposta estabelece critérios mais objetivos para a fixação das penas, reduzindo a margem de interpretação.

Na avaliação de parlamentares favoráveis, a medida aumenta a segurança jurídica e evita decisões consideradas subjetivas ou desproporcionais.

Por outro lado, críticos afirmam que a mudança pode engessar o Judiciário e dificultar a individualização da pena — princípio considerado essencial no Direito Penal.

Por que o veto foi derrubado

O veto presidencial havia sido aplicado sob o argumento de que o projeto poderia interferir na autonomia do Poder Judiciário. Ainda assim, o Congresso decidiu derrubar esse veto, restabelecendo o texto aprovado anteriormente.

Esse movimento é visto como mais um capítulo da tensão entre Legislativo e Judiciário, especialmente em temas ligados ao sistema penal e à atuação dos tribunais superiores.

Impacto político e jurídico

Nos bastidores, a discussão vai além do aspecto técnico. O tema ganhou força em meio a críticas recorrentes de parlamentares sobre decisões judiciais consideradas excessivas ou desproporcionais.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam que mudanças desse tipo podem gerar efeitos práticos relevantes, principalmente em casos de grande repercussão.

Nos corredores de Brasília, a leitura é clara: o Congresso tenta ampliar seu protagonismo sobre regras que, historicamente, ficaram sob forte influência do Judiciário.

E os réus do 8 de janeiro?

Os envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023 foram condenados por crimes como tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. As penas aplicadas variam bastante — em alguns casos, ultrapassando 15 anos de prisão — justamente por conta da dosimetria.

Com a mudança aprovada pelo Congresso, o cenário pode sofrer alterações.

Na prática, advogados podem argumentar que houve excesso na fixação das penas, já que o novo modelo tende a limitar a margem de interpretação dos juízes.

Isso pode abrir espaço para pedidos de revisão das condenações, principalmente nos tribunais superiores.

Por outro lado, juristas apontam que a aplicação não é automática. Cada caso precisaria ser analisado individualmente, e o tema ainda deve gerar novos embates no Supremo Tribunal Federal.

O que esperar agora

Com a derrubada do veto, o texto segue para promulgação e deve passar a valer após publicação oficial. Ainda assim, o tema pode parar no Supremo Tribunal Federal, caso haja questionamentos sobre sua constitucionalidade.

O debate está longe de acabar — e deve seguir como um dos pontos de atrito entre os Poderes nos próximos meses.

Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro. Envie informações e sugestões à coluna pelo WhatsApp: (34) 99791-0994.

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