A tentativa do deputado federal de justificar a posse de R$ 470 mil em dinheiro vivo acabou deslocando o foco da investigação para um ponto anterior da narrativa.
A pergunta que agora ganha força é outra:
quem comprou o imóvel em dinheiro vivo do parlamentar?
O questionamento surgiu após a divulgação de um vídeo em que Sóstenes exibe uma escritura pública para sustentar a legalidade de sua evolução patrimonial. O documento, no entanto, esclarece apenas parte da história.
O que a escritura realmente comprova
A escritura apresentada foi lavrada no 3º Cartório de Notas de Ituiutaba e tem data de 15 de fevereiro de 2023. O conteúdo do documento é claro: Sóstenes Cavalcante figura como comprador do imóvel.
No vídeo divulgado, o deputado afirma: “o imóvel é uma casa que eu comprei em dois mil e vinte e três, na cidade de Ituiutaba, devidamente registrado em cartório, em meu nome, no meu CPF”.
Ou seja, tanto a fala quanto o documento caminham na mesma direção ao confirmar a aquisição do bem.
O ponto de tensão surge na etapa seguinte da narrativa. Ao confirmar a compra, o documento acaba abrindo uma nova frente de interesse público e investigativo: a identidade do comprador do imóvel e as condições dessa negociação inicial, que não foram detalhadas publicamente.
Quem comprou e como foi pago?
Até o momento, o deputado não detalhou publicamente quem foi o comprador do imóvel, tampouco os termos da transação realizada.
Em apurações que envolvem dinheiro vivo, esse tipo de informação costuma ser decisivo. A cadeia patrimonial — quem vendeu, quem comprou, por qual valor e de que forma — é analisada para afastar ou confirmar indícios de operações atípicas.
Nos bastidores, investigadores avaliam se o histórico anterior do imóvel pode ajudar a esclarecer:
- o valor efetivo da compra;
- a forma de pagamento utilizada;
- a compatibilidade da operação com a renda declarada;
- e a eventual circulação de recursos em espécie já naquela etapa.
Venda posterior segue sem comprovação
Há um ponto que causa estranhamento adicional no relato apresentado: a forma de pagamento.
No vídeo, Sóstenes afirma que recebeu R$ 500 mil “à vista, em dinheiro”, mas não deixa claro se o pagamento teria sido feito diretamente pelo comprador ou intermediado por imobiliária. Em operações imobiliárias dessa natureza, o uso de dinheiro vivo é considerado atípico e costuma acionar alertas automáticos de fiscalização.
O fato objetivo até aqui é outro: o vídeo e a escritura apenas comprovam que o deputado possuía um imóvel. Eles não comprovam, até o momento, que esse imóvel foi efetivamente vendido nem que houve o recebimento lícito de valores decorrentes dessa suposta venda.
Essa distinção é central para a apuração. Propriedade declarada não equivale a alienação comprovada.
Outro ponto sensível é o efeito colateral da narrativa apresentada. Caso o parlamentar venha a identificar publicamente quem teria comprado o imóvel, o ônus da explicação não recairá apenas sobre ele.
Quem for citado como comprador também terá de demonstrar:
- a origem dos recursos utilizados;
- a capacidade financeira para pagamento em espécie;
- a compatibilidade da operação com sua renda declarada.
É nesse ponto que, segundo fontes ouvidas pela Coluna Poder, o problema começa de fato. A rastreabilidade do dinheiro passa a envolver terceiros, ampliando o alcance da investigação.
Enquanto isso não ocorre, a versão apresentada permanece como narrativa política — não como prova documental suficiente.
Essa segunda etapa, no entanto, segue sem comprovação documental pública. Até agora, não foi apresentada escritura, contrato de venda ou identificação do comprador.
A ausência mantém o foco da investigação e reforça os alertas sobre transações imobiliárias de alto valor liquidadas em dinheiro, que normalmente acionam comunicações obrigatórias.
A Coluna Poder procurou o deputado para solicitar esclarecimentos formais sobre a identificação do comprador e a forma de pagamento da suposta venda do imóvel, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.
Ituiutaba no centro do radar
Embora eleito pelo Rio de Janeiro, Sóstenes mantém vínculos políticos e pessoais com Ituiutaba. O vídeo utilizado pelo deputado para exibir a escritura foi publicado nas redes sociais por Hermano Freitas, pré-candidato a deputado federal e candidato derrotado nas eleições de 2024 à Prefeitura de Ituiutaba.
Hermano já declarou publicamente, em mais de uma ocasião, que considera Sóstenes “como um pai”, evidenciando a relação política e pessoal entre os dois.
A divulgação do documento por um aliado político ajuda a dimensionar o peso regional do episódio e explica por que o caso extrapolou o campo jurídico, passando a produzir efeitos também no debate político local.
Fontes ouvidas pela Coluna Poder avaliam que, enquanto quem vendeu o imóvel ao deputado não for claramente identificado, o episódio continuará gerando ruído político e questionamentos públicos.
A PF segue analisando os documentos e materiais apreendidos. Novas informações devem surgir com o avanço das perícias e cruzamentos patrimoniais.

Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro.
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O ministro Alexandre comprou uma casa por 12 milhões em dinheiro….e aí? Como fica a comprovação da origem e renda de um juiz que recebe 45.000,00. Olhem para o lugar certo….essa casa do deputado é um barraco perto do imperador.