Uberlândia e o Triângulo Mineiro assistem a um fenômeno raro na política nacional: dois ex-governadores do mesmo estado disputam espaço na corrida ao Palácio do Planalto simultaneamente. Romeu Zema e Aécio Neves chegam à pré-campanha de 2026 por estradas opostas — mas ambos carregam o peso e o capital político que só Minas Gerais, o maior colégio eleitoral do interior do país, consegue gerar.
A coincidência geográfica não produz aliança. Produz disputa.
Zema: o primeiro a largar, mas longe do pelotão
Romeu Zema foi o mais ousado. Natural de Araxá, no Triângulo Mineiro, o ex-governador do Novo lançou sua pré-candidatura à presidência já em agosto de 2025, antes de qualquer concorrente da direita. O evento em São Paulo reuniu correligionários e figuras ligadas ao bolsonarismo, com discurso centrado em privatizações, críticas ao STF e ao que chamou de “lulismo”.
Meses depois, o ímpeto antecipado não se converteu em vantagem nas pesquisas. Levantamentos de abril e maio de 2026 mostram Zema oscilando entre 4% e 5% nas intenções de voto estimuladas — tecnicamente empatado com Ronaldo Caiado (PSD), muito atrás de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que disputam a liderança com folga. Em simulações de segundo turno, o ex-governador empata tecnicamente com o presidente Lula — um dado que seus aliados exploram como sinal de viabilidade.
Zema deixou o governo de Minas em março de 2026 para se dedicar integralmente à pré-campanha. Seu discurso é o de empresário que chegou à política sem nunca ter dependido do setor público. “Sou o único pré-candidato da direita que veio do setor privado”, afirmou em entrevista ao Canal Livre no início de maio. A aposta é clara: diferenciar-se de políticos de carreira, inclusive dos aliados.
O problema de Zema está nos bastidores, não nos palanques. O PL, partido da família Bolsonaro, descartou apoiar o candidato do governador Mateus Simões (PSD) ao governo de Minas — sinal de que a relação entre Novo e o bolsonarismo segue tensa. Em 2022, Zema só declarou apoio a Jair Bolsonaro no segundo turno, e isso ainda cobra preço.
Aécio: de volta aos holofotes, sem pressa para decidir
A movimentação em torno de Aécio Neves tem outra textura. O deputado federal pelo PSDB não se autolançou — foi convocado. Na última semana de maio, a federação PSDB-Cidadania, com apoio do Solidariedade, formalizou o convite para que ele avalie uma candidatura à presidência. A reunião em Brasília reuniu Alex Manente (Cidadania), Paulinho da Força (Solidariedade) e Roberto Freire, entre outros dirigentes.
A pré-candidatura foi aprovada pela executiva do Cidadania por unanimidade. Sete diretórios estaduais do PSDB — do Rio Grande do Sul a São Paulo — divulgaram manifestos de apoio. O movimento ganhou força após Ciro Gomes confirmar intenção de disputar o governo do Ceará, deixando o campo do centro sem uma referência nacional.
O problema é que Aécio ainda não disse que topa. E não tem prazo para decidir.
“Não gosto de chamar de terceira via, porque não vejo nas outras duas uma via que nos leve ao futuro. Portanto, chamo de ‘A via'”, disse o deputado, em discurso que seus aliados já tratam como sinal positivo — mas que, na prática, é uma resposta sem resposta.
Nos bastidores, aliados do tucano avaliam que a prioridade de Aécio continua sendo a reconstrução do PSDB, que busca eleger entre 35 e 40 deputados federais em 2026. Uma candidatura presidencial seria, para muitos, mais uma plataforma de visibilidade para o partido do que uma aposta real no Planalto.
O que Minas tem a ver com isso
O peso político de Minas Gerais torna qualquer liderança do estado um ativo estratégico nacional. O estado é o segundo maior colégio eleitoral do país e costuma espelhar tendências de campanha. Ter dois ex-governadores mineiros na corrida presidencial — ainda que em espectros opostos do cenário político — reforça a centralidade do estado no mapa eleitoral de 2026.
Para o Triângulo Mineiro, onde Uberlândia, Uberaba, Ituiutaba e Araguari concentram eleitorado expressivo e historicamente disputado, a dupla presença mineira na corrida presidencial cria um terreno fértil para articulações locais.
Zema tem base no Triângulo — Araxá é sua cidade natal. Aécio tem raízes no centro político da região, herdadas de uma trajetória que começa com o avô, Tancredo Neves. São histórias distintas, projetos distintos e eleitorados que raramente se sobrepõem.
A corrida ainda não tem dono
O que une Zema e Aécio é o diagnóstico: o campo fora da polarização entre PT e PL precisa de candidatura. O que os separa é tudo o mais — ideologia, base, estilo de campanha, relação com o establishment político e viabilidade eleitoral percebida.
Para a Coluna Poder, o cenário é de disputa de narrativa. Zema já está na estrada. Aécio ainda pondera. E Minas, como sempre, observa — sabendo que, no fim das contas, é o estado que costuma decidir.
Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro. Envie informações e sugestões à coluna pelo WhatsApp: (34) 99791-0994.

