Prefeitura afasta corregedora após vazamento de áudios e abre sindicância em Uberlândia

Caso ganhou repercussão após denúncia de vereador na Câmara, mas afastamento partiu do Executivo

Adelino Júnior
Fachada do centro administrativo onde é administrada a cidade de Uberlândia
Centro Administrativo Virgílio GalassiFoto: PMU
GRUPO EXCLUSIVO

Bastidores da política em primeira mão

Grupo ativo agora · Acesso gratuito

O caso envolvendo a Corregedoria Geral de Uberlândia ganhou força nos últimos dias após a divulgação de áudios que indicariam possível interferência em processos administrativos disciplinares. O caso passou a ter maior repercussão pública após manifestação na Câmara Municipal e já é alvo de apuração formal.

O primeiro movimento político sobre o tema partiu do vereador Adriano Zago (Avante), que levou a denúncia ao plenário da Câmara, ampliando o debate público sobre o conteúdo dos áudios e o funcionamento interno da Corregedoria.

Antes disso, uma denúncia anônima já havia sido protocolada no Ministério Público de Minas Gerais, em 27 de março de 2026, apontando possíveis irregularidades na condução de processos dentro do órgão.

O material inclui transcrições de conversas atribuídas à corregedora Ana Cláudia Alvarenga Melo Baron, nas quais são citadas situações como possível definição prévia de decisões, postergação de processos e tratamento diferenciado entre investigados.

Áudios levantam questionamentos

Áudio 1

Transcrição:
Supostamente a Corregedora: Nós vamos o que? Postergar o PAD. Vamos pensar no futuro breve.

Abre um PAD contra a Neiva. E a Neiva tá próximo de aposentar. Eu seguro o processo contra a Neiva até ela aposentar. To falando é isso.

Entendeu?

INTERLOCUTOR: Não.

Áudio 2

Transcrição:
Supostamente a Corregedora: E nesse processos. Eu decido. Mas aí estou te perguntando, como está seu estômago para isso? [Pausa e vozes ao fundo] Entendeu?

Avalia, pensa.

Interlocutor: Mas por que estão falando isso?

Supostamente a Corregedora: Porque eu não vou presidir. Vai ter processo que vai cair na sua mão que tem ter decisão final pronta antes de abrir.

Interlocutor: É, isso aí.

Áudio 3

Transcrição:
Interlocutor: Mas aí é, foi o que eu falei. Não tem como eu fazer nem opinar nada. É você quem decide.

Se pode tá… abrindo essa margem.

Supostamente a Corregedora: A minha decisão (risos) a minha decisão eu vou fazer assim oh: essa decisão aqui dessa comissão tem que sair isso.

Interlocutor: Não, é. Isso aí a gente vê, porque…

Supostamente a Corregedora: Não tem como vê. Tem que sair, e aí. Isso que to te falando.

Preparado?

Interlocutor: Vamos ver. Não sei.

Supostamente a Corregedora: (gargalhada)

Interlocutor: Não sei.

Supostamente a Corregedora: Não, não tem como ver não. To falando sério.

Interlocutor: Eu também tô.

Supostamente a Corregedora: Seu estômago aguenta?

Áudio 4

Transcrição:
Interlocutor: É isso aí. Não é do meu feitio não. Claro que o que der pra…

se a lei te der uma margem. Beleza. Agora se não der…

Supostamente a Corregedora: Não, to falando de processo que a lei não vai dar margem. A real é, a lei não vai dar margem. A lei não tem margem.

O que dá margem é questão de passar o pano. Vou te falar, por exemplo, casos de assédio. Vão chegar casos de assédio da Iracema. E a Iracema não vai ser processada. A Iracema não vai ser punida.

Áudio 5

Transcrição:
Supostamente a Corregedora: Intocável, essa é a palavra certinha que você tá usando.

Não adianta.

Interlocutor: [parte inaudível] agente político, agora, Kátia da vida [parte inaudível] É… [som ao fundo e vozes]

Tem que ver então, pode ser que eu não tenha esse perfil.

Supostamente a Corregedora: Reflete, pensa, avalia…

Áudio 6

Transcrição:
Supostamente a Corregedora: Não é que não vai ter punição. Não é que não vai ter isso.

Vai ter. Só que de uma forma diferente. Não é [parte inaudível]. Não é dessa forma. Como deveria. Só pra você pensar … [pausa] Jogo de cintura Relaxa [pausa] [parte inaudível] ruim? pedi seu dinheiro? (gargalhada)

Interlocutor: Não. Pior do que isso.

Supostamente a Corregedora: Que isso

Áudio 7

Transcrição:
Supostamente a Corregedora: Pensa. To sendo bem sincera pra você não ficar… sendo pego de surpresa, nem vendido. Viu?

Interlocutor: Não, tá, mas e se eu não concordar e…

Supostamente a Corregedora: Aí é plano B né.


Entre os trechos que passaram a circular, há falas que sugerem a possibilidade de decisões previamente definidas em processos administrativos.

“Vai ter processo que vai cair na sua mão que tem que ter decisão final pronta antes de abrir”, diz um dos trechos.

Em outro momento, aparece a indicação de direcionamento de resultados em comissões disciplinares:

“Essa decisão aqui dessa comissão tem que sair isso”.

Também há menção a casos sensíveis, como denúncias de assédio, em que a condução dos processos é colocada em dúvida.

“Vão chegar casos de assédio… e não vai ser punida”.

Possível postergação de processos

Outro ponto levantado envolve a condução de prazos e andamento de processos administrativos.

“Eu seguro o processo até ela aposentar”, aponta um dos trechos.

As denúncias encaminhadas ao Ministério Público citam, de forma geral, possíveis retenções de apurações, além de questionamentos sobre a imparcialidade na condução de processos.

Até o momento, não há conclusão oficial sobre o conteúdo dos áudios.

Câmara amplia debate, mas afastamento parte da Prefeitura

A repercussão política do caso ganhou força após a manifestação de Adriano Zago no plenário da Câmara, o que levou o tema ao centro do debate legislativo.

Na sequência, o vereador Fabão (PV) apresentou um requerimento solicitando o afastamento cautelar da corregedora, aprovado em regime de urgência.

O documento destaca a necessidade de preservar a imparcialidade das investigações e evitar possíveis interferências durante a apuração.

Apesar da movimentação no Legislativo, o afastamento não ocorreu por determinação da Câmara, mas sim por decisão do Executivo municipal.

Prefeitura instaura sindicância e afasta servidora

Em nota, a Secretaria Municipal de Administração de Uberlândia informou que instaurou sindicância administrativa para apurar os fatos.

“A Secretaria Municipal de Administração informa que instaurou, através da Portaria SMA nº 238/2026, publicada no DOM nº 7335 de 17/04/2026, Sindicância Administrativa para apurar os fatos e áudios veiculados em redes sociais, relacionados à Corregedora Geral do Município, bem como examinar os fatos relacionados que surgirem no curso dos trabalhos.”

A pasta também confirmou o afastamento preliminar da servidora, com base em recomendação da comissão responsável pela apuração.

“Comunica que foi acolhida a recomendação da Comissão Sindicante de afastamento preliminar da servidora, a fim de assegurar a efetividade da instrução processual, afastando qualquer possibilidade de interferência na apuração dos fatos, bem como de eventual alegação, respeitando-se o princípio da presunção de inocência.”

Segundo a Prefeitura, a medida segue diretrizes de governança e compliance.

“A abertura da sindicância segue os conceitos da política pública local de governança e compliance e as boas práticas que promovem um serviço público cada vez mais transparente e eficiente.”

Caso segue em apuração

O episódio coloca em debate a atuação de um dos principais órgãos de controle interno da administração municipal.

A sindicância deverá apurar a veracidade dos áudios e a eventual existência de irregularidades na condução de processos administrativos.

Até a conclusão dos trabalhos, não há definição sobre responsabilizações, e a servidora mantém o direito à ampla defesa e ao contraditório.

Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro. Envie informações e sugestões à coluna pelo WhatsApp: (34) 99791-0994.

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário