A Câmara Municipal de Uberlândia encerrou 2025 com números expressivos de produção legislativa. Ao todo, foram 36.627 matérias protocoladas ao longo do ano. O volume chama atenção. Mas, por trás da quantidade, os dados oficiais levantam uma pergunta incômoda nos bastidores do Legislativo: produzir mais significa, necessariamente, legislar melhor?
O levantamento, obtido a partir do sistema interno da Câmara, detalha a produção por tipo de matéria e por autor. E revela um padrão claro: a maior parte da atividade parlamentar está concentrada em requerimentos e indicações, instrumentos que ajudam a dar visibilidade a demandas locais, mas que não criam leis nem obrigam o Executivo a agir.
Funciona assim: uma indicação é, na prática, o vereador formalizando um pedido à Prefeitura — como solicitar a instalação de um quebra-molas ou a limpeza de uma via. O pedido vira documento oficial, recebe número e entra na contabilidade do mandato, mas não obriga o Executivo a executar a ação. Se não houver interesse ou prioridade, nada acontece. Já projetos de lei seguem outro caminho: criam regras, alteram políticas públicas e exigem articulação política e enfrentamento de interesses.
Requerimentos e indicações dominam a pauta
Do total de matérias protocoladas em 2025, 20.647 foram requerimentos e 12.107 indicações. Juntas, essas duas categorias representam mais de 88% de toda a produção legislativa do ano.
São instrumentos legítimos e previstos no regimento. Servem para cobrar informações, registrar demandas e pressionar o Executivo. Mas, na prática, não têm força normativa e não produzem efeitos estruturais por si só.
Mandatos hiperprodutivos e a lógica do volume
O levantamento também evidencia mandatos com produção extremamente elevada. Alguns vereadores ultrapassaram a marca de dois mil, três mil e até cinco mil protocolos em um único ano legislativo.
Nos bastidores, esse modelo é visto como uma estratégia política clara. Volume gera discurso. Gera relatório. Gera postagem em rede social. “É o tipo de número que impressiona, mas que precisa ser lido com lupa”, resume um interlocutor da própria Casa.
O dado bruto, isolado, não diferencia atuação burocrática de protagonismo legislativo. Um mandato pode protocolar centenas de requerimentos e, ainda assim, não deixar nenhuma marca estrutural na legislação da cidade.
Produção qualificada é minoria
Quando o recorte avança para matérias de maior densidade legislativa — como Projetos de Lei Ordinária e Complementar, Projetos de Decreto Legislativo e Propostas de Emenda à Lei Orgânica — os números caem de forma significativa.
Essas iniciativas exigem mais preparo técnico, negociação política e disposição para enfrentar interesses. Também geram mais desgaste. Não por acaso, são minoria.
O dado reforça uma crítica antiga, feita inclusive por vereadores em conversas reservadas: o sistema incentiva quantidade, não qualidade.

O que os números não mostram
Os dados não medem impacto social, execução das propostas nem a efetividade das matérias apresentadas. Também não diferenciam projetos aprovados dos arquivados ou ignorados.
Ainda assim, cumprem um papel relevante: expõem o modelo atual de funcionamento do Legislativo municipal. Um modelo altamente produtivo no protocolo, mas cauteloso — ou confortável — quando o assunto é legislar de forma estrutural.
A pergunta que fica, ao fim do levantamento, é menos sobre números e mais sobre prioridade. A Câmara quer ser lembrada pelo volume de matérias protocoladas ou pelo impacto das leis que produz?
Os dados consolidados permitem avançar para uma análise mais detalhada do perfil de atuação parlamentar, com a separação por tipo de matéria apresentada por cada vereador ao longo de 2025.
Produção legislativa por vereador em 2025
| Vereador(a) | Total | Indicações | Requerimentos | Projetos de Lei* | Emendas Impositivas |
|---|---|---|---|---|---|
| Abatenio Marquez | 1.080 | 260 | 708 | 39 | 20 |
| Adriano Zago | 631 | 207 | 289 | 23 | 38 |
| Amanda Gondim | 541 | 102 | 272 | 30 | 32 |
| Anderson Lima | 5.668 | 2.894 | 2.698 | 21 | 25 |
| Ângela do Postinho | 1.704 | 585 | 1.060 | 5 | 47 |
| Antônio Augusto Queijinho | 1.273 | 290 | 816 | 56 | 30 |
| Antônio Carrijo | 667 | 235 | 330 | 22 | 36 |
| Delegada Lia Valechi | 756 | 227 | 405 | 25 | 26 |
| Dr. Igino | 1.130 | 394 | 563 | 26 | 47 |
| Edinho Combate ao Câncer | 2.211 | 912 | 1.155 | 50 | 20 |
| Elinho da Academia | 1.371 | 398 | 872 | 16 | 21 |
| Fabão | 1.426 | 335 | 853 | 8 | 45 |
| Gláucia da Saúde | 290 | 79 | 160 | 1 | 32 |
| Ivan Nunes | 2.212 | 784 | 1.371 | 9 | 33 |
| Jair Ferraz | 709 | 132 | 456 | 36 | 42 |
| Janaina Guimarães | 549 | 256 | 224 | 14 | 34 |
| Liza Prado | 2.814 | 573 | 2.019 | 95 | 42 |
| Neemias Miquéias | 193 | 16 | 81 | 10 | 31 |
| Nei Borges | 1.467 | 564 | 851 | 6 | 21 |
| Pezão do Esporte | 909 | 176 | 646 | 9 | 15 |
| Prof. Conrado Augusto | 523 | 24 | 238 | 27 | 13 |
| Prof. Ronaldo | 1.109 | 269 | 605 | 28 | 64 |
| Ronaldo Tannús | 1.170 | 202 | 811 | 60 | 31 |
| Sargento Ednaldo | 3.429 | 1.246 | 1.991 | 44 | 106 |
| Sérvio Túlio | 983 | 293 | 595 | 19 | 34 |
| Thais Andrade | 557 | 173 | 294 | 13 | 14 |
| Zezinho Mendonça | 1.720 | 482 | 1.058 | 87 | 30 |
*Projetos de Lei incluem projetos ordinários e complementares.
Tabela elaborada com base em dados oficiais da Câmara Municipal de Uberlândia (2025).
Metodologia
Os dados utilizados nesta análise foram extraídos do relatório oficial “Matérias por Ano, Autor e Tipo – 2025”. Para a tabela de produção qualificada, foram considerados apenas Projetos de Lei Ordinária e Projetos de Lei Complementar, excluindo requerimentos, indicações, moções e emendas impositivas, por não produzirem efeito normativo direto ou por permitirem fracionamento livre de valores.”
Produção legislativa qualificada (apenas projetos de lei)
Para evitar distorções, a tabela abaixo considera somente projetos de lei (Projetos de Lei Ordinária + Projetos de Lei Complementar). As emendas impositivas ficaram de fora, já que podem ser fracionadas pelos vereadores, o que inflaciona comparações.
| Vereador(a) | Projetos de Lei (PLO+PLC) |
|---|---|
| Liza Prado | 101 |
| Ronaldo Tannús | 61 |
| Antônio Augusto Queijinho | 57 |
| Edinho Combate ao Câncer | 50 |
| Sargento Ednaldo | 46 |
| Abatenio Marquez | 39 |
| Jair Ferraz | 36 |
| Amanda Gondim | 31 |
| Prof. Ronaldo | 30 |
| Dr. Igino | 28 |
| Prof. Conrado Augusto | 27 |
| Antônio Carrijo | 26 |
| Delegada Lia Valechi | 25 |
| Anderson Lima | 24 |
| Adriano Zago | 21 |
| Sérvio Túlio | 19 |
| Elinho da Academia | 16 |
| Janaina Guimarães | 14 |
| Thais Andrade | 13 |
| Neemias Miquéias | 10 |
| Ivan Nunes | 9 |
| Pezão do Esporte | 9 |
| Fabão | 8 |
| Nei Borges | 6 |
| Ângela do Postinho | 5 |
| Gláucia da Saúde | 1 |
Tabela elaborada com base em dados oficiais da Câmara Municipal de Uberlândia (2025).
Quando o critério deixa de ser apenas volume e passa a ser produção legislativa efetiva, o cenário muda. Os números mostram que a discussão sobre produtividade na Câmara Municipal de Uberlândia passa menos pela quantidade de protocolos e mais pelas escolhas políticas feitas ao longo do mandato: legislar exige enfrentamento, enquanto protocolar é confortável.
Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro.
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