A declaração do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, sobre o deputado André Janones reacendeu um debate que parecia encerrado em Brasília. Em entrevista ao Podcast Três Irmãos, Boulos afirmou que, na visão dele, houve prática de rachadinha — e foi direto ao ponto.
“Para mim, quem faz rachadinha tem que ser punido, tem que ir pra cadeia”, disse.
A fala tem peso político. Isso porque o próprio Boulos foi relator do caso no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados e apresentou parecer que acabou contribuindo para o arquivamento da representação contra Janones.
A defesa de um critério
Mesmo reconhecendo a gravidade do caso, Boulos sustentou a mesma linha adotada no relatório: a de que o Conselho de Ética não poderia julgar fatos anteriores ao mandato atual.
Segundo ele, permitir a punição de Janones naquele contexto abriria margem para decisões com critérios distintos, dependendo do lado político.
“Se fez rachadinha, que a Justiça puna. Agora, não dá para usar dois pesos e duas medidas dentro da Câmara”, afirmou.
O argumento central do ministro é institucional. Para ele, caberia à Polícia Federal, ao Ministério Público e à Justiça tratar do caso — e não ao Conselho de Ética, quando os fatos ocorreram antes da legislatura vigente.
O custo político da fala
A declaração, no entanto, produz um efeito imediato: reforça a narrativa dos adversários de que houve proteção política.
Isso porque Boulos deixa claro que, na visão pessoal dele, houve irregularidade. Ainda assim, defende a decisão que evitou uma punição política na Câmara.
Na prática, a fala desloca o debate. Sai da discussão sobre existência ou não de rachadinha — que ele praticamente assume — e passa a girar em torno de quem deveria punir e em qual esfera.
Bastidores
Nos bastidores, a leitura ganha um ingrediente extra: a fala de Boulos coloca pressão dentro do próprio campo governista. Isso porque ele é quadro do PSOL, hoje ministro do governo Lula, enquanto André Janones (Rede) é um dos principais apoiadores e cabos eleitorais do presidente no Congresso e nas redes.
Ao mesmo tempo, Boulos tenta blindar a coerência do seu parecer, sem assumir o custo de negar os fatos. Ao admitir a gravidade do caso, reforça o incômodo de parte do eleitorado com decisões políticas que não acompanham a percepção pública — e abre flanco para cobrança interna na base.
Em resumo, a fala resolve um problema — o de parecer complacente — mas cria outro: o de explicar por que, mesmo vendo erro, ajudou a evitar uma punição no campo político, inclusive entre aliados.
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Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, com análises exclusivas da política em Uberlândia, no Triângulo Mineiro e em Minas Gerais. Sugestões, informações e denúncias também podem ser enviadas pelo WhatsApp: (34) 99791-0994.
