Quem salva o Janones? Mesa aciona Conselho de Ética e histórico mostra que casos terminam com punição

Representação assinada pelo presidente Hugo Motta pede suspensão de Janones por tumulto no plenário. Na história da Câmara, poucos pedidos da Mesa Diretora foram arquivados sem virarem processo. Até o Avante parece se afastar do deputado.

Adelino Júnior
deputado federal André Janones, imagem em preto e branco
André Janones, ainda quando era representante do Movimento Por Amor a Ituiutaba, na década passada. Foto: Acervo/Regionalzão

Editoria patrocinada por:

Decorcolors

E agora, quem salva André Janones? O deputado mineiro, do Avante, voltou ao centro de uma encrenca política que pode custar caro. Na última sexta-feira (11), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), assinou e enviou ao Conselho de Ética uma representação pedindo a suspensão do mandato de Janones por até seis meses. O motivo: a confusão em plenário durante o discurso do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), quando Janones interrompeu a fala do colega e foi acusado de xingamentos e provocações contra parlamentares bolsonaristas.

E se Janones contava com a retaguarda do seu partido, o Avante, a situação começa a ficar mais incerta. Luis Tibé, presidente da sigla e considerado um articulador habilidoso nos bastidores, já parece ter deixado Janones de lado. Nos corredores de Brasília, a avaliação é que Tibé dificilmente vai intervir diretamente para blindar o deputado nesta nova crise. O isolamento político de Janones, inclusive dentro de casa, se amplia.

A pressão sobre Janones também vem se acumulando em outras frentes. Além do tumulto em plenário, o deputado é alvo de acusações graves, incluindo a suspeita de tentativa de chantagem contra a prefeita de Ituiutaba usando supostas fotos íntimas. O caso foi revelado pelo Regionalzão na Coluna Poder e elevou ainda mais a temperatura em torno do parlamentar. Além disso, Janones também está envolvido no caso da rachadinha, tendo confessado em acordo com o Ministério Público que praticou a prática ilegal de reter parte dos salários dos assessores, o que aumentou ainda mais a pressão política sobre ele.

Presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta
Presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (REPUBLICANOS – PB) – Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Histórico pesa contra Janones

Na política, tudo é possível. Mas se Janones está apostando que a representação “vai morrer na gaveta”, o histórico joga contra ele. Representações feitas diretamente pela Mesa Diretora quase sempre viram processo no Conselho de Ética. Arquivamentos sumários são exceção raríssima.

  • No Mensalão (2005), a Mesa apresentou pedidos contra José Dirceu e Roberto Jefferson. Todos os processos foram adiante, resultando até em cassações.
  • Eduardo Cunha (2016) foi alvo de representação da Mesa que seguiu firme no Conselho até cassação.
  • Em 2021, no caso Daniel Silveira, a Mesa também acionou o Conselho, que instaurou processo — embora o STF tenha depois atropelado a questão.
  • Houve apenas um caso claro de arquivamento sumário: em 2017, quando a Mesa mandou ao Conselho a briga de Jean Wyllys e Jair Bolsonaro. O Conselho considerou que era “troca de ofensas recíprocas” e engavetou o caso logo de cara.

Na imensa maioria das vezes, se a Mesa envia, o Conselho de Ética ao menos abre o processo. Mesmo que no fim não haja cassação, o parlamentar passa a enfrentar um desgaste político considerável.

O fantasma do rito sumário

Para complicar a vida de Janones, há um fator novo no jogo: o rito sumário criado em 2024. Desde então, a Mesa Diretora pode solicitar a suspensão preventiva do mandato de um deputado por até seis meses, se entender que houve quebra grave de decoro. Foi o que aconteceu agora. O pedido da Mesa está baseado nesse mecanismo.

Essa mudança foi pensada justamente para evitar a demora que protegia parlamentares enrolados. O caso Janones pode virar o segundo grande teste desse instrumento, já que a primeira aplicação foi este ano contra Gilvan da Federal (PL-ES), suspenso por três meses após ofensas à deputada e ministra Gleisi Hoffmann.

Janones se diz vítima

Nas redes, Janones reagiu rápido. Afirmou ter sido cercado por deputados bolsonaristas e sustenta que foi ele a vítima de agressões. Fez exame de corpo de delito e promete contra-atacar juridicamente. Enquanto isso, o PL segue firme na ofensiva e não descarta insistir também na acusação de rachadinha, que já foi arquivada uma vez no Conselho, mas que ganhou novo fôlego após revelações sobre acordo de Janones com o Ministério Público.

Faltando pouco menos de um ano para as eleições, uma suspensão de seis meses no mandato poderia selar o futuro político de Janones, tirando-o do plenário justamente no período decisivo para articulações e campanha.


Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro.

Envie informações e sugestões à coluna pelo WhatsApp: (34) 99791-0994.

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário
Coluna Poder

Os bastidores da política antes de todo mundo

Entre no grupo Bastidores com Adelino no WhatsApp e receba direto no seu celular os furos, análises e o que ainda não saiu na coluna.

Entrar no grupo