Uberaba é a segunda maior economia do Triângulo Mineiro, referência nacional no agronegócio e na indústria. Mas quando o assunto é emenda parlamentar da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o município aparece em posição acanhada: apenas R$ 9,09 por habitante em repasses efetivamente pagos, segundo levantamento do portal O Fator.
O número, por si só, já seria constrangedor para uma cidade do porte de Uberaba. Mas ganha outra dimensão quando colocado ao lado de um fato político que o explica — e o agrava.
A cidade não tem sequer um deputado estadual ou federal para chamar de seu.
O vácuo que tem preço
Nas eleições de 2022, Uberaba não elegeu nenhum representante no Legislativo — nem em Belo Horizonte, nem em Brasília. O excesso de candidaturas locais fragmentou os votos e impediu qualquer eleição. O resultado político virou, aos poucos, um resultado econômico.
Cidades menores, cofres maiores
A comparação com municípios da própria região deixa o tamanho do problema em números. Enquanto Uberaba ficou com R$ 9,09 por morador em emendas da ALMG, Douradoquara registrou R$ 437,40 per capita. Canápolis chegou a R$ 329,15. Gurinhatã alcançou R$ 309,61.
A diferença não é marginal — é de dezenas de vezes, em favor de cidades com populações e economias incomparavelmente menores.
A lógica é conhecida por quem acompanha a política orçamentária estadual: emendas parlamentares não seguem critérios técnicos ou populacionais. Seguem a articulação política. Parlamentares destinam recursos para onde têm base eleitoral, aliados no Poder Executivo municipal e projetos em andamento. Sem deputados próprios, Uberaba depende da boa vontade de representantes eleitos por outras cidades.
Araguari avança enquanto Uberaba espera
O contraste com Araguari, cidade vizinha de menor porte, é ilustrativo. A cidade conta com o deputado federal Zé Vítor (PL-MG), com protagonismo nacional nas pautas do agronegócio e do meio ambiente, e com o deputado estadual Raul Belém (Cidadania), que mantém articulação ativa na região. Ambos foram eleitos com voto concentrado da base local — e a cidade colhe os frutos dessa representação.
Araguari recebeu R$ 87,05 per capita em emendas, o que representa quase 10 vezes mais do que Uberaba (R$ 9,09).
Uberaba observa de longe.

O cenário político e a disputa por 2026
A ausência de representantes já mobiliza parte da classe política uberabense. A prefeita Elisa Araújo fala em união, mas, segundo uma entrevista, não descarta múltiplos apoios na disputa de 2026 — o que, na prática, pode repetir o cenário de fragmentação que custou à cidade sua representação legislativa.
Nos bastidores, a avaliação é que sem uma candidatura unificada — ou ao menos coordenada — para deputado estadual e federal, Uberaba corre o risco de chegar a 2027 novamente sem voz nos parlamentos. E com menos recursos do que cidades que cabem no seu bairro.
O ciclo eleitoral de 2026 é a próxima janela. E a conta das emendas mostra, com precisão aritmética, o que está em jogo.
O levantamento do portal O Fator considerou emendas individuais, transferências especiais (emendas Pix) e recursos de blocos parlamentares efetivamente pagos. Os índices per capita foram calculados com base no Censo 2022 do IBGE.
Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro. Envie informações e sugestões à coluna pelo WhatsApp: (34) 99791-0994.

