Uberlândia recebe R$ 23,81 por habitante em emendas parlamentares

Maior cidade do interior mineiro fica bem abaixo da média regional de R$ 56,45 por morador; municípios com menos de 10 mil habitantes levam até 14 vezes mais por habitante

Adelino Júnior
Vista aérea noturna de Uberlândia, mostrando prédios residenciais e comerciais iluminados na região central da cidade.
Vista aérea de Uberlândia durante a noite, com destaque para a região central da cidade. ? Secretaria de Governo e Comunicação / PMU

Uberlândia é a segunda maior cidade de Minas Gerais, a nona maior do interior do Brasil e o maior polo econômico do Triângulo Mineiro. No papel, um peso-pesado. Na prática, quando o assunto são as emendas parlamentares estaduais, a cidade não corresponde ao tamanho que tem.

Os dados da Secretaria de Estado de Governo (Segov), consolidados pelo portal O Fator, mostram que Uberlândia recebeu R$ 23,81 por habitante na atual legislatura — menos da metade da média de R$ 56,45 por morador registrada no Triângulo Mineiro.

O número coloca a maior cidade da região na lanterninha proporcional do próprio Triângulo.

O paradoxo do gigante que recebe pouco

A comparação mais reveladora não vem de fora do estado. Ela está dentro da própria região.

Enquanto Uberlândia, com mais de 750 mil habitantes, ficou em R$ 23,81 por morador, Gurinhatã e Canápolis — municípios com populações de poucos milhares de habitantes — receberam R$ 309 e R$ 329 por habitante, respectivamente.

A diferença é de até 14 vezes quando comparado o critério per capita. Não se trata de um detalhe estatístico. É o retrato de como o sistema de emendas parlamentares estaduais funciona na prática: a lógica não é tamanho, é articulação.

Municípios menores, com deputados estaduais que os adotam como base eleitoral prioritária, conseguem concentrar indicações e converter votos em obras. Cidades grandes demais para depender de um só nome — e sem uma bancada coesa que as defenda — acabam diluídas.

Uberaba vai pior. Ituiutaba, também

O fenômeno não é exclusivo de Uberlândia. As principais cidades do Triângulo Mineiro repetem o mesmo padrão.

Uberaba recebeu apenas R$ 9,09 por habitante — o pior desempenho proporcional entre as cidades de maior porte da região. Ituiutaba, polo do Pontal do Triângulo, ficou em R$ 35,94 por morador, também abaixo da média regional.

As três maiores cidades do Triângulo, juntas, ficam abaixo da média regional. Não é coincidência: é um padrão estrutural.

Contagem recebe mais — e não é polo regional

Para entender o tamanho do problema, vale uma comparação fora do Triângulo.

Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, tem perfil urbano e industrial semelhante ao de Uberlândia — grandes populações, economia diversificada, sem identidade de cidade pequena. Segundo o mapa interativo do O Fator, Contagem recebeu R$ 41,62 por habitante em emendas estaduais.

Ainda abaixo da média mineira, mas quase o dobro do que Uberlândia conseguiu. A diferença não se explica pelo tamanho das cidades. Explica-se pela densidade da representação parlamentar na ALMG — e pela capacidade de articulá-la.

Enquanto isso, cidades como Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, registraram R$ 190,21 por habitante — oito vezes mais do que Uberlândia. O Vale do Rio Doce como região chegou a R$ 196,18 por morador, contra R$ 56,45 de média no Triângulo Mineiro.

Para Uberlândia, isso significa disputar em dois níveis simultâneos: dentro da própria região, onde perde para municípios menores, e dentro do estado, onde a região inteira leva desvantagem.

O que os dados pedem

Os números não fazem julgamentos. Mas apontam uma questão que o campo político de Uberlândia terá de enfrentar: como uma cidade que concentra quase 30% da população do Triângulo Mineiro representa tão pouco na divisão dos recursos estaduais?

A resposta está menos nos gabinetes e mais nas urnas — e na capacidade de eleger parlamentares estaduais que transformem o tamanho da cidade em musculatura política real em Belo Horizonte.

Enquanto isso não acontece, os R$ 23,81 por habitante seguem como um dado silencioso, mas bastante eloquente.

Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro. Envie informações e sugestões à coluna pelo WhatsApp: (34) 99791-0994.

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