Pela primeira vez desde que assumiu a Prefeitura de Uberlândia, o prefeito Paulo Sérgio (PP) deixou de lado o termo técnico “restos a pagar” e passou a usar, sem rodeios, a palavra dívida para se referir à situação financeira do município.
A mudança ocorreu durante a abertura do Ano Legislativo de 2026, na Câmara Municipal, e não passou despercebida nos bastidores políticos.
Até aqui, o discurso oficial do governo sempre foi cuidadoso. “Restos a pagar” soava como herança administrativa, algo contábil, quase neutro. Ao assumir publicamente que herdou dívidas, o prefeito altera o enquadramento político do problema — e isso muda o jogo.
Quando o discurso muda, o bastidor ferve
Não se trata de detalhe semântico. Na política, palavras carregam intenções. Ao falar em dívida, Paulo Sérgio sinaliza que já não faz tanto esforço para suavizar o cenário encontrado na transição.
Nos corredores da Câmara, a leitura é clara: o prefeito começa a preparar o terreno para um discurso mais duro, inclusive mirando a gestão anterior, comandada pelo ex-prefeito Odelmo Leão (PP).
Durante a sessão, ele reconheceu que 2025 foi um ano dedicado a “arrumar a casa” e pagar compromissos deixados, afirmando que o município assumiu o ano com capacidade de pagamento rebaixada, no nível C. A fala dialoga diretamente com o debate levantado por vereadores da oposição, que questionaram números, auditorias e a real situação do caixa municipal.
A diferença agora é que o Executivo não se limita mais à linguagem técnica. O problema passou a ter nome político.
Base confortável, oposição em alerta
Com uma base ampliada no Legislativo, o prefeito falou em tom seguro. Agradeceu o apoio da Câmara, elogiou aliados e reforçou que os financiamentos aprovados permitiram destravar obras e investimentos.
Ao mesmo tempo, vereadores de oposição exploraram justamente o novo discurso. Para eles, chamar de dívida reforça a tese de que o cenário financeiro é mais grave do que o governo admitia até então.
“Quando o prefeito troca ‘restos a pagar’ por ‘dívida’, ele admite que o problema não é só contábil, é estrutural”, resumiu um vereador ouvido reservadamente pela coluna.
Um recado calculado
Nos bastidores, a avaliação é que Paulo Sérgio começa 2026 mais à vontade politicamente. Com obras anunciadas, recursos do PAC assegurados e novos financiamentos assinados, o prefeito parece disposto a assumir um discurso menos defensivo.
O uso da palavra dívida não foi improviso. Foi recado.
E, como todo recado bem dado, deixou a oposição atenta e a base confortável.

Esse Conteúdo faz parte da Coluna Poder, assinada por Adelino Júnior, que acompanha os bastidores da política no Triângulo Mineiro.
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