“Cleitinho Elétrico”: o passado pop do senador mineiro

Muito antes da política, senador trabalhou no sacolão da família, cantou pagode em bares de Divinópolis e ganhou notoriedade com paródias políticas nas redes sociais.

Eloi Naves
Cleitinho Elétrico
Cleitinho Elétrico, nome artístico que era usado pelo senador mineiro.Foto: Cleitinho Elétrico / Divulgação

Nos últimos dias, o senador Cleitinho Azevedo esteve no centro de uma verdadeira novela política envolvendo uma possível candidatura ao Governo de Minas Gerais. Após meses de indefinição, o Republicanos chegou a afirmar que não poderia mais esperar por uma decisão do parlamentar e indicou que seguiria outro caminho. Horas depois, Cleitinho reuniu a imprensa em Divinópolis, afirmou que queria disputar o Palácio Tiradentes e pediu desculpas ao partido pela demora. Nos dias seguintes, as negociações continuaram, o senador chegou a dizer que permaneceria no Senado e, nesta terça-feira (4), voltou a declarar que deseja, sim, disputar o governo do Estado.

Em meio às reviravoltas que dominaram os bastidores da política mineira, muita gente passou a acompanhar a trajetória do senador. Mas poucos conhecem a história de antes da vida pública. Muito antes dos discursos no Senado, dos milhões de visualizações nas redes sociais e das disputas eleitorais, Cleitinho era conhecido em Divinópolis como “Cleitinho Elétrico”, nome artístico que utilizava quando se apresentava como cantor de pagode.

Foi entre o trabalho no sacolão da família, os palcos de bares da região e vídeos de humor político gravados de forma independente que começou a ser construída a comunicação que, anos mais tarde, faria dele um dos políticos mais populares de Minas Gerais.

Do sacolão para os palcos

Natural de Divinópolis, Cleiton Gontijo de Azevedo cresceu ajudando no comércio de hortifrúti da família. O sacolão fazia parte da rotina diária e foi ali que ele manteve contato direto com trabalhadores, comerciantes e clientes da cidade.

À noite, porém, a realidade era outra.

Apaixonado por música, Cleitinho passou a se dedicar ao pagode e integrou o grupo Brotos do Samba, além de realizar apresentações solo em bares, clubes e eventos da região. Foi nessa fase que adotou o nome artístico “Cleitinho Elétrico”, marca que passou a identificá-lo nas apresentações musicais.

O cantor que levava política para os shows

As apresentações não demoraram a ganhar uma característica diferente.

Além do repertório de pagode, Cleitinho aproveitava o contato com o público para comentar problemas da cidade, criticar administrações municipais e fazer discursos contra privilégios da classe política.

Segundo relatos feitos pelo próprio senador em diferentes entrevistas ao longo dos anos, esse posicionamento começou a incomodar lideranças políticas da região.

Ele afirma que alguns prefeitos chegaram a procurar contratantes para pedir que seus shows fossem cancelados, numa tentativa de impedir que utilizasse os palcos para fazer críticas públicas.

O resultado acabou sendo justamente o contrário do esperado.

As paródias que conquistaram a internet

Com menos espaço para apresentações, Cleitinho encontrou nas redes sociais uma nova forma de se comunicar.

Ao lado dos irmãos e de outros familiares, começou a produzir vídeos com paródias musicais que misturavam humor, músicas populares e críticas à corrupção, aos gastos públicos e aos privilégios políticos.

Os vídeos passaram a circular rapidamente pelo Facebook e pelo WhatsApp, especialmente em Divinópolis e em cidades do Centro-Oeste mineiro.

Muito antes do formato de vídeos curtos dominar a internet, Cleitinho já utilizava uma linguagem simples, direta e popular para conversar com o público.

Foi nesse período que sua imagem começou a ultrapassar o universo da música e passou a ganhar espaço também no debate político regional.

O conselho do Ratinho

Segundo o próprio Cleitinho, um dos momentos decisivos para sua entrada na política aconteceu diante da televisão.

Assistindo ao Programa do Ratinho, ouviu o apresentador questionar por que tantas pessoas reclamavam dos políticos, mas poucas aceitavam disputar eleições para tentar mudar a realidade.

A fala ficou marcada.

Pouco tempo depois, outro incentivo importante veio dentro da própria família.

Seu irmão gêmeo, Gleidson Azevedo, percebeu que os vídeos gravados por Cleitinho já haviam criado uma forte identificação popular. Na avaliação dele, aquela popularidade poderia ser transformada em votos.

A partir dali, nasceu o projeto de disputar uma eleição.

A estreia na política

Em 2016, Cleitinho concorreu pela primeira vez ao cargo de vereador de Divinópolis.

Sem uma grande estrutura financeira e apostando principalmente nas redes sociais e no contato direto com a população, foi eleito com 3.023 votos, iniciando uma trajetória política meteórica.

Depois do mandato na Câmara Municipal, foi eleito deputado estadual, tornando-se um dos parlamentares mais votados de Minas Gerais. Em 2022, chegou ao Senado Federal com mais de 4,5 milhões de votos, consolidando-se como uma das principais lideranças políticas do estado.

Uma comunicação que atravessou os anos

Embora tenha trocado os palcos pela tribuna do Senado, muitas das características desenvolvidas na época do “Cleitinho Elétrico” continuam presentes.

A linguagem simples, a comunicação direta, os vídeos produzidos para as redes sociais e o tom informal permanecem como marcas registradas de sua atuação política.

Essa identidade, construída muito antes da primeira campanha eleitoral, ajuda a explicar a forte conexão que mantém com uma parcela significativa do eleitorado mineiro.

Da música para a política

A história de Cleitinho mostra um percurso pouco comum entre políticos brasileiros.

Antes de ocupar um gabinete em Brasília, ele passou pelo comércio da família, cantou pagode em bares do interior de Minas, gravou paródias que viralizaram na internet e transformou essa visibilidade em capital político.

Hoje, enquanto seu futuro político volta a dominar o noticiário por causa das discussões sobre uma candidatura ao Governo de Minas, o apelido “Cleitinho Elétrico” permanece como lembrança de uma fase que antecedeu a vida pública, mas que ajudou a moldar a forma como o senador se comunica até os dias atuais.

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