O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) enfrenta forte oposição do mercado de pesquisas eleitorais após apresentar uma nova proposta técnica. Na terça-feira (14), o presidente da corte, ministro Kassio Nunes Marques, sugeriu criar uma certificação para os institutos. O encontro ocorreu em Brasília com a presença de representantes de 16 empresas do segmento. Chamada de “Selo Acurácia Eleitoral”, a iniciativa visa premiar as entidades que mais se aproximarem do resultado oficial das urnas em 2026.
Entretanto, a reação do setor de levantamentos estatísticos foi imediata e crítica. Diversos cientistas políticos e associações expressaram insatisfação com a medida. A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), por exemplo, criticou duramente a resolução. Em nota oficial, a entidade apontou que a ideia ignora fundamentos básicos da estatística. Segundo o documento, exigir que uma pesquisa ‘acerte’ o resultado é confundir ciência com bola de cristal.
Questionamentos técnicos e metodológicos
Especialistas defendem que avaliar os institutos dessa forma desvirtua o real propósito das sondagens. A diretora do Datafolha, Luciana Chong, posicionou-se de forma contrária ao projeto em São Paulo. Para a executiva, as amostragens retratam apenas o momento da coleta de dados, sem a pretensão de adivinhar o futuro.
Ela reforçou que as variáveis de campo impedem previsões exatas. Pesquisas são estimativas estatísticas, sujeitas a margem de erro, diferentes metodologias, momentos distintos de coleta e mudanças no comportamento do eleitorado, declarou. Por essa razão, Chong defende que não faz sentido reduzi-las a um ranking baseado apenas na proximidade com o resultado final, como se fosse possível medir sua qualidade exclusivamente por esse critério.
Alertas sobre incentivo perverso nas eleições
Por outro lado, analistas políticos apontam que a premiação pode gerar comportamentos nocivos no mercado. Há um receio generalizado de que surja um “incentivo perverso”. Dessa forma, os institutos poderiam manipular ou ajustar seus números na reta final da campanha apenas para se adequarem às tendências médias, reduzindo a transparência.
O cientista político Bruno Bolognesi argumenta que a fiscalização deveria seguir outra direção. Ele sugere que a Justiça Eleitoral foque em verificar o registro profissional dos estatísticos e a qualidade das perguntas elaboradas. Por enquanto, a proposta do selo consta em uma minuta de resolução. O texto ainda precisa do aval dos demais ministros no plenário da corte, mas as associações já se articulam para impedir sua aprovação.

