Rodrigo Pacheco tomou posse nesta quarta-feira (30) como ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), em Brasília. Ao assumir a cadeira deixada por Bruno Dantas, o ex-presidente do Senado dá um novo rumo à carreira e se afasta das disputas eleitorais que, durante anos, pareciam reservar a ele um lugar de destaque na política mineira.
A escolha permite uma leitura política: Pacheco parece ter se cansado das urnas. Depois de ser apontado como possível candidato ao governo de Minas Gerais e de ser sondado para a disputa de 2026, optou por não concorrer e ingressou em um tribunal cujo cargo tem aposentadoria compulsória aos 75 anos.
O desfecho contrasta com as expectativas que acompanharam sua eleição em 2018. Naquele ano, Pacheco foi o candidato ao Senado mais votado de Minas Gerais, com 3.616.864 votos, equivalentes a 20,49% dos votos válidos. Então filiado ao DEM, saiu da eleição com uma votação que o credenciava para projetos políticos maiores.
A possibilidade de chegar ao governo mineiro combinava com a imagem de uma liderança em ascensão. Advogado, com passagem pela Câmara dos Deputados e perfil de negociação, Pacheco reunia características que poderiam aproximá-lo de diferentes grupos políticos.
Nos primeiros quatro anos após aquela eleição, sua projeção cresceu. Em fevereiro de 2021, ainda na primeira metade do mandato de senador, foi eleito presidente do Senado com 57 votos. Passou a comandar também o Congresso Nacional e a ocupar uma das posições mais importantes da República.
A ascensão, porém, trouxe conflitos. Embora tenha contado com o apoio de Jair Bolsonaro na primeira eleição para a presidência da Casa, Pacheco entrou em rota de colisão com o bolsonarismo e setores da extrema-direita, especialmente nas disputas envolvendo o Supremo Tribunal Federal.
Um dos episódios centrais ocorreu em agosto de 2021, quando rejeitou o pedido de impeachment de Alexandre de Moraes apresentado pelo então presidente da República. A decisão seguiu parecer da Advocacia do Senado, que apontou ausência de justa causa e de enquadramento dos fatos apresentados como crimes de responsabilidade.
Ataques e desgaste pessoal
O confronto também chegou às redes sociais. Em meio aos ataques, Pacheco chegou a fechar seus perfis, restringindo o acesso e as interações. Em março de 2021, sua assessoria confirmou que havia trancado as redes após uma movimentação considerada atípica. Meses depois, ele continuava com contas fechadas enquanto se tornava alvo de campanhas de grupos bolsonaristas.
O desgaste também apareceu nos relatos de bastidores sobre seu entorno. Ataques nas redes e episódios de hostilidade presencial teriam deixado Pacheco abatido, a ponto de questionar se assumir a presidência do Senado havia sido um erro. Esses relatos ajudam a compreender o incômodo pessoal que acompanhou sua exposição política.
Sob a perspectiva da análise política, esse aspecto merece atenção. A dificuldade de lidar com a rejeição pode se tornar um obstáculo importante para quem pretende construir uma carreira eleitoral. Disputar votos exige enfrentar críticas, adversários e parcelas do eleitorado que rejeitam tanto as posições quanto a própria figura do candidato.
Isso não torna ataques pessoais ou campanhas de intimidação aceitáveis. Mas a capacidade de suportar o desgaste e continuar dialogando com o público pesa na disposição de enfrentar uma campanha. Para alguém projetado como possível governador, uma disputa estadual significaria ampliar ainda mais essa exposição.
Influência em Brasília e futuro em Minas
Em 2023, a divisão política ficou explícita na disputa pela presidência do Senado. Pacheco foi reeleito com 49 votos, contra 32 de Rogério Marinho, candidato apoiado pelo bolsonarismo. Dessa vez, sua permanência no cargo contou com articulação do governo Lula.
Vencer aquela eleição demonstrou sua capacidade de construir maioria entre senadores. Mas o apoio dentro do Congresso não respondia, por si só, à pergunta que acompanhava sua trajetória em Minas: conseguiria transformar a influência em Brasília em votos suficientes para governar o estado?
A eleição de 2026 poderia oferecer essa resposta. Pacheco, entretanto, recusou a possibilidade de disputar o governo mineiro, mesmo após negociações com o presidente Lula para que entrasse na corrida.
Não é possível atribuir essa decisão exclusivamente ao incômodo com os ataques. Ainda assim, o desgaste relatado ao longo de sua trajetória acrescenta um elemento à leitura de que a vida eleitoral deixou de ser um projeto atraente para ele.
A vaga no STF e o caminho até o TCU
Outro episódio marcou esse afastamento das urnas: a disputa pela cadeira deixada por Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente do Supremo Tribunal Federal em outubro de 2025. Pacheco contava com amplo apoio no Senado para ser indicado, incluindo o respaldo do presidente da Casa, Davi Alcolumbre.
Lula, porém, escolheu o advogado-geral da União, Jorge Messias. A decisão, anunciada em novembro de 2025, abriu um período de tensão com setores do Senado que defendiam Pacheco. A controvérsia atravessou os primeiros meses de 2026 e terminou com uma derrota para o governo.
Em 29 de abril, o plenário rejeitou a indicação de Messias por 42 votos contrários e 34 favoráveis. Eram necessários pelo menos 41 votos para a aprovação. Segundo a Agência Senado, foi a primeira rejeição de um indicado ao Supremo em 132 anos. A cadeira de Barroso continua sem preenchimento.
Pacheco acabou seguindo outro caminho. A saída de Bruno Dantas abriu uma vaga no TCU, e Alcolumbre apoiou sua indicação para a Corte de Contas. O destino institucional se concretizou depois de a possibilidade de ingresso no Supremo ter ficado pelo caminho.
Não há elementos para definir a chegada ao TCU como um “prêmio de consolação”. Na leitura política, porém, o novo cargo acaba premiando a trajetória de Pacheco e atende ao rumo que ele vinha buscando: permanecer em uma posição relevante da República, com estabilidade e sem depender de novas disputas eleitorais.
Sua experiência parlamentar passa agora a ser aplicada à fiscalização dos recursos públicos federais, atribuição da Corte de Contas.
Pacheco chega ao novo cargo depois de alcançar o topo do Legislativo. Fica, porém, a impressão de uma trajetória eleitoral interrompida antes do teste que tantos esperavam. O político que saiu das urnas de 2018 como promessa de renovação em Minas escolheu seguir a carreira em uma instituição na qual sua permanência não depende de uma nova campanha.

