A menos de um ano da eleição que definirá o próximo governador de Minas Gerais, o cenário político no estado é de cautela, hesitação e contas no vermelho. O peso da crise fiscal mineira, marcada por uma dívida bilionária com a União e pela adesão ao Programa de Acompanhamento e Gestão (ProPag), tem afastado nomes que, até pouco tempo atrás, eram cotados como protagonistas na disputa de 2026.
Minas vive uma das situações financeiras mais delicadas do país: o estado está submetido a rígidas metas, amarras e exigências impostas pelo regime fiscal federal, condição que limita investimentos e comprime a capacidade de gestão do próximo governador. O efeito político é direto: ninguém quer assumir o comando de um estado quebrado sem garantia de viabilidade mínima para governar.
Pacheco e Nikolas recuam, Cleitinho observa
O primeiro a admitir publicamente seu receio foi o ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD). Em uma série de declarações recentes, Pacheco afirmou que não disputará o governo de Minas, com a justificativa de se aposentar da vida pública. Porém, internamente o senador já havia relatado que assumir o governo de Minas na atual situação poderia ser uma queda política irreparável, devido às dificuldades que o estado enfrentará.
Dias depois, foi a vez do deputado federal Nikolas Ferreira (PL) afastar a possibilidade de candidatura. Em sua fala, o parlamentar destacou ter apenas 29 anos e afirmou que assumir Minas na atual situação seria como “pilotar um avião com a tripulação torcendo para ele cair” — uma metáfora direta ao risco político e administrativo. Nikolas reconheceu não ter experiência de gestão suficiente para enfrentar o tamanho do desafio.
Nos bastidores, aliados do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) relatam percepção semelhante. Embora o nome dele circule como potencial candidato, o próprio Cleitinho admite, em conversas reservadas, preocupação com sua falta de trajetória administrativa para comandar um estado sob forte intervenção fiscal. Por isso, sua candidatura segue incerta e depende de articulações ainda frágeis.
Kalil entra no radar, mas enfrenta entraves judiciais
Outro nome que surge como possibilidade é o do ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil (PDT). Porém, conforme noticiado nesta terça-feira (25) pelo Regionalzão Notícias, Kalil enfrenta um processo judicial que suspendeu seus direitos políticos.
A pendência está relacionada a um caso de sua gestão à frente da Prefeitura de Belo Horizonte, o que cria um obstáculo significativo para uma eventual candidatura em 2026. Embora ainda haja margem para recursos, o cenário jurídico fragiliza sua condição e adiciona mais incerteza ao já conturbado quadro eleitoral mineiro.
E no campo da esquerda? Indefinição continua após saída de Pacheco
Com a saída de Rodrigo Pacheco, que era o nome preferido do presidente Lula para encabeçar a chapa em Minas, a esquerda também enfrenta indefinição. O nome mais provável hoje é o do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), que pode compor uma chapa ao lado da prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), uma das principais lideranças petistas no estado.
Em entrevista concedida ao Regionalzão durante o evento do Programa Gás do Povo, em Uberlândia, no mês de outubro, Silveira afirmou que estará onde o presidente Lula precisar, reforçando que está à disposição do Palácio do Planalto para a disputa mineira.
A costura, porém, ainda depende de movimentos internos do PT e de uma possível saída de Silveira do PSD, já que o partido passou a abrigar recentemente o atual vice-governador Matheus Simões, potencial candidato do governo Zema à sucessão. Esse reposicionamento partidário cria um impasse e pode alterar totalmente o arranjo da esquerda para 2026.
Simões surge como o único disposto a encarar o problema
Enquanto os principais nomes da direita, do centro e agora também da esquerda hesitam, o atual vice-governador, Matheus Simões (PSD), desponta como o único que demonstra disposição plena para entrar na disputa. Simões já atua, na prática, como uma espécie de governador interino, ocupando espaços deixados por Romeu Zema, que intensificou sua movimentação nacional em pré-campanha à Presidência.
Simões conhece a máquina por dentro e aposta que conseguirá transformar a crise fiscal em narrativa de responsabilidade — embora a herança seja pesada e o caminho, extremamente arriscado.
Um governo difícil de assumir
A projeção é de que o próximo governador encontrará um estado:
- sem capacidade de investimento
- com a folha de pagamento pressionada
- dependente de negociações permanentes com a União
- limitado por metas rígidas do ProPag
- com baixo espaço para políticas públicas estruturais
Ou seja: quem assumir Minas a partir de 2027 enfrentará o mandato mais complexo das últimas décadas.



