Neuromodulação não invasiva dá esperança para autistas, aponta novo estudo brasileiro

Protocolo inédito mostra melhora expressiva em comunicação, comportamento e qualidade de vida de autistas após protocolo, abrindo caminho para terapias complementares ao tratamento tradicional

Analú Guimarães
Foto: Divulgação

Um estudo publicado na revista científica internacional Pediatric Reports (indexada no PubMed/NIH) traz resultados promissores para o tratamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente em quadros severos e com múltiplas comorbidades.

Conduzido pela médica e doutoranda em Genética e Bioquímica, Clarissa Oliveira, juntamente à Universidade Federal de Uberlândia, o estudo relatou melhora significativa  após cinco semanas de tratamento não invasivo com a tecnologia de neuromodulação REAC (Radio Electric Asymmetric Conveyer). Os resultados mostram queda de 34,9% no escore ATEC total; melhora de 75% em linguagem e comunicação; e reduções em quatro dos cinco domínios do questionário ABC, inclusive 77,8% em comunicação, sem relato de efeitos adversos.

Para Clarissa, uma intervenção segura, não medicamentosa, que melhora a comunicação de uma pessoa com autismo severo é muito promissor, podendo representar um novo caminho real de inclusão”. Ela afirma que a técnica ajuda o cérebro a reorganizar as conexões, favorecendo circuitos de linguagem, atenção e interação social, algo que, até então, era difícil nos casos mais graves de TEA, especialmente quando há comorbidades como epilepsia, problemas de sono ou gastrointestinais.

O caso chama atenção não só pela melhora clínica, mas pelo contexto: trata-se do primeiro caso documentado no Brasil de neuromodulação não invasiva via REAC aplicada a paciente autista grave e com múltiplas comorbidades. Isso coloca a pesquisa da UFU e da Clínica Conceito Saúde entre as mais avançadas da neurociência translacional no país, conectando genética, bioquímica, neurofisiologia e comportamento.

Profissionais que acompanham o paciente relataram melhor contato visual, respostas mais rápidas a comandos, menos agitação e interação social mais frequente após o tratamento.

Autismo: números mostram a escala do desafio

Segundo dados do mais recente censo nacional, o Brasil identificou oficialmente 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA, o que corresponde a cerca de 1,2% da população.


Dados globais indicam que o TEA afeta entre 1% e 2% da população mundial, com estimativas de até mais de 60 milhões de pessoas diagnosticadas até 2021. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde há um monitoramento sistemático, cerca de 1 em cada 36 crianças é identificada com autismo (dados de 2023).

Porque o estudo da neuromodulação importa

Para muitos pacientes com TEA, sobretudo os mais graves, intervenções comportamentais e terapias tradicionais nem sempre garantem avanços na comunicação, no controle comportamental ou na qualidade de vida. A proposta da neuromodulação via REAC chega como uma opção complementar, segura, não invasiva e baseada em evidência científica. “Se conseguimos melhorar a comunicação e a interação social de quem antes vivia em isolamento quase completo, abrimos portas para inclusão, educação e melhor qualidade de vida, não só para a pessoa, mas para a família inteira. Nosso compromisso é seguir com rigor científico, transparência e ética. Ainda não se fala em cura, mas em um caminho real para melhorar a vida de quem convive com o autismo. A técnica não substitui terapias já conhecidas, mas pode atuar como complemento para ampliar resultados”, resume Clarissa.

Ainda que seja um estudo inicial, com apenas um caso clínico, o impacto simbólico e científico posiciona a pesquisa brasileira no debate internacional da neurociência. Os próximos passos já estão em andamento: a equipe prepara novos protocolos com grupos maiores, visando confirmar os resultados e tornar o tratamento mais acessível.

O estudo completo pode ser consultado na Pediatric Reports (PubMed/NIH)

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